Há livros que se abrem como uma gaveta há muito fechada, como um álbum de fotografias antigo onde repousam histórias que o tempo ainda não terminou de revelar. Em “Atos de Desobediência” (Asa, 2025) espreitamos através de uma janela entreaberta, observando a personagem principal, despida, enquanto revive cada fase da sua história: vemos os fantasmas do passado, escutamos as vozes da infância e os ecos de promessas deixadas algures na juventude.
Helena Magalhães conta-nos a história de Glória Brito, dando voz à sua inquietude ao longo das 336 páginas deste romance. A cada página virada, é como se removêssemos um penso antigo que cobre feridas ainda por cicatrizar. Escritora de profissão, Glória vive à sombra de um sucesso que não regressou, atormentada por um passado duro, marcado pelos erros de vários homens (com o h mais pequeno que possam imaginar).
Glória Brito é uma personagem profundamente inquieta, que questiona o seu propósito, as suas escolhas e a sua própria identidade. O passado surge-lhe gravado em pedra, e é essa pedra que transporta diariamente, como um peso invisível que condiciona o seu fado.
Pode um bairro, uma família disfuncional, uma sucessão de perdas e a ausência de afecto reclamar uma presença constante, mesmo quando a vida insiste em seguir noutra direcção? Glória não enfrenta apenas um bloqueio criativo ou a insegurança artística, enfrenta a lenta erosão de uma identidade construída sobre certezas que o tempo foi, pacientemente, desgastando.
“Atos de Desobediência” fala de literatura, mas recusa-se a transformá-la num lugar inacessível. Os livros surgem como objectos imperfeitos, incapazes de salvar alguém de forma definitiva. Helena Magalhães escreve sobre o acto de escrever com lucidez e sem romantismos excessivos, a literatura surge aqui como um trabalho arqueológico: uma escavação contínua de memórias, silêncios e feridas.
Neste romance destacam-se também as relações humanas conturbadas, sejam elas familiares, de amizade ou de amor. Cada personagem parece transportar consigo um calendário próprio, um conjunto de datas que explica ausências, medos e diferentes formas de amar. “Atos de Desobediência” fala da estranha distância entre quem fomos e quem nos tornámos, lembrando-nos que o tempo, esse leitor implacável, raramente fecha um livro sem antes deixar uma dobra numa página importante.











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