Enquanto algumas obras tiram partido dos livros como adereço estético, “A Sociedade Secreta dos Livros” (Penguin, 2026) aproveita todo o poder deste simples objecto enquanto gesto de emancipação, insubordinação íntima e sobrevivência. Situada na Londres vitoriana de 1895, a trama acompanha um grupo de mulheres presas a casamentos abusivos, convenções sufocantes e estruturas patriarcais, que tratam a inteligência feminina e qualquer acto que possa ser minimamente identificado com a emancipação como uma patologia.
Esta “sociedade secreta” de leitura é, assim, organizada sob a aparência inocente de encontros sociais, sendo que o que começa como um clube literário se converte, pouco e pouco, num espaço de resistência feminina, solidariedade emocional e reconstrução identitária.
Ao longo das cerca de 330 páginas que compõem o livro, Madeline Martin demonstra uma competência assinalável na criação de atmosfera, transportando o leitor de forma competente para os abafados salões de baile e mansões britânicas, envolvendo-o nos códigos sociais (mais ou menos) silenciosos e vigentes à época e nos vestidos transformados em armaduras sociais, mas também na constante vigilância masculina sobre o comportamento feminino. O romance lê-se com fluidez, à boleia de capítulos curtos que alternam entre personagens e calibram a narrativa.
O grande mérito do livro reside, contudo, na forma como este recupera o dado ou facto histórico frequentemente subestimado de que, durante o período vitoriano, a leitura – sobretudo de ficção – podia ser encarada como uma actividade perigosa para as mulheres. Na altura, persistia a ideia de que os romances estimulavam os desejos, a independência intelectual ou a desobediência moral, com Madeline Martin a explorar essa temática cultural transformando cada livro clandestino numa pequena declaração revolucionária.
As protagonistas – Eleanor, Rose e Lavinia – acabam por funcionar como personagens ambíguas, arquétipos cuidadosamente desenhados para gerar empatia imediata – havendo a mulher esmagada pelo marido controlador, a americana deslocada na aristocracia britânica e a jovem frágil com um potencial por descobrir -, com Madeline Martin privilegiando de forma notória a acessibilidade emocional em detrimento da complexidade psicológica. É precisamente neste ponto que o livro revela as suas fragilidades, pois muitas das figuras masculinas aproximam-se da caricatura funcional, sendo os homens retratados como opressores ou moralmente rígidos cuja principal função narrativa é legitimar a união feminina (embora também haja, pelo menos, uma clara excepção à regra entre as personagens). A autora parece menos interessada em investigar ou expor as contradições do sistema patriarcal do que em construir um contraste claro entre repressão masculina e libertação colectiva feminina, o que faz com que o resultado seja emocionalmente satisfatório mas nem sempre literariamente sofisticado.
Há, ainda, um elemento particularmente interessante, que se prende com o facto de o livro não glorificar apenas a leitura como um passatempo refinado mas, também, como uma ferramenta de auto-consciência, onde ler não serve apenas para escapar do mundo mas, também, para o reinterpretar. Essa distinção acaba por ser importante, pois a literatura não surge como um mero ornamento cultural, antes como um mecanismo de reorganização subjectiva, dimensão que impede o romance de cair no sentimentalismo fácil que domina parte da ficção histórica contemporânea.
Do ponto de vista estilístico, Madeline Martin escreve com clareza e ritmo, ainda que sem grande ousadia formal, com o foco a recair na experiência emocional do leitor – e não na invenção linguística. “A Sociedade Secreta dos Livros” talvez não seja um grande romance histórico no sentido literário mais exigente do termo – falta-lhe ambiguidade moral, maior profundidade psicológica e um mais pronunciado risco estilístico -, mas é um livro profundamente consciente do poder simbólico da leitura e da amizade feminina em contextos de repressão. Mais do que um romance sobre livros, esta é uma obra sobre mulheres que descobrem, através dos livros, que têm direito a existir para lá daquilo que lhes é ou foi imposto – e essa continua a ser sempre uma ideia literariamente poderosa











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