“Quando o toque se torna mortal, o que resta da humanidade?”. É este o ponto de partida para “Terra Estreita” (Penguin, 2026), a epopeia distópica assinada por Mafalda Santos, autora que tem saído do apertado espartilho da ficção nacional, efectuando paragens no terror ou na distopia.
A história, cuja premissa faz lembrar de certa forma Shatter Me, a extensa saga de Tahereh Mafi, tem origem num fenómeno global – ou “evento”, como anunciado na televisão -, em que o toque humano passa a ser mortal.
Numa sociedade obrigada a reescrever-se, a narrativa acompanha uma irmandade construída por cinco desconhecidos – duas mulheres, dois homens e uma criança surda -, que acreditam haver um refúgio num lugar remoto, onde está a ser desenvolvida uma cura para que o toque volte a fazer parte da experiência humana. Um colectivo que quer alterar a nova ordem mundial, instalada depois do “evento”, em que “as cidades vestiram-se de grades e muros, as ruas despiram-se de bancos, paragens de autocarro e parques infantis, os transportes colectivos deixaram de circular e a maioria das lojas, restaurantes e outros espaços comerciais faliu, porque as pessoas passaram a comprar online tudo aquilo de que precisavam. A máxima era evitar o risco de aproximação, sempre que possível”.
Mafalda Santos faz-nos olhar para um mundo onde o afecto, pelo menos na sua versão física, é letal e somente “um exercício de imaginação e memória”, juntando-lhe diversas questões éticas e filosóficas, onde muitas vezes a liberdade individual se vê confrontada pela ideia de colectivo, num novo mundo onde há territórios anexados, alterações à constituição, cancelamento de livros, um descrédito quase total na imprensa e blocos de partos operados por máquinas.
“Terra Estreita” teria funcionado melhor com um narrador menos participativo, que mostra uma acentuada inclinação para fazer comentários sobre o estado do mundo ou a condição humana. Ainda assim, mora aqui uma distopia bem imaginada e construída, que apela à capacidade de resistência face aos totalitarismos, à esperança como um sexto sentido. Que Mafalda Santos continue a sua jornada por este universo.











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