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“Ginseng Roots” | Craig Thompson

Por Pedro Miguel Silva · Em 16/06/2026

É, a semanas de completarmos meio 2026, um dos grandes lançamentos do ano no que diz respeito à banda desenhada e às novelas gráficas. Craig Thompson não publicava desde a edição, em 2015, de “Space Dumplins”, uma novela gráfica de ficção científica dirigida a jovens leitores – e um fracasso comercial -, mas o regresso fez valer toda a espera, com um trabalho que está ao nível de “Blankets” ou “Habibi”.

“Ginseng Roots” (Asa, 2026) parte, tal como “Blankets”, da história pessoal de Thomson, que logo a abrir nos indica o caminho: “A minha cidade natal tinha apenas 1200 habitantes, no entanto, na década de 1980, esta pequena comunidade rural no centro de Wisconsin era o maior produtor mundial de ginseng americano”.

Cruzando a memória pessoal, a vida familiar, a investigação jornalística, a pesquisa histórica e o relato documental, Craig Thompson parte do ginseng para este muito original livro de memórias. Afinal, como diz o seu irmão a certa altura, “podes contar a história do ginseng sem a China. Mas não podes contar a nossa infância sem o ginseng”.

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Uma infância passada, em boa parte, nos campos de cultivo, onde aos 9 ou 10 anos cada hora de trabalho passou a significar dinheiro para um livro de banda desenhada, a forma de evasão escolhida por Thomson e o seu irmão para uma vida a rasar a pobreza.

No que diz respeito à história do ginseng, Craig Thomson dá-nos a conhecer os seus predadores, a morfologia e o significado da palavra, o risco e a paciência que implica o seu cultivo – 3 a 4 anos para uma colheita – ou as diferenças entre o ginseng americano, chinês e sul-coreano, com muitas páginas cheias de procedimentos técnicos e extensas descrições que poderão afastar o leitor menos paciente.

O ginseng é, porém, apenas a semente para uma biografia desenhada, na qual Craig Thomson nos leva numa viagem desde a infância ao tempo presente, onde nos conta não apenas a sua história mas também a da sua família, vizinhos e amigos, sem esquecer um olhar sobre uma sociedade capitalista assente no lucro.

A nível pessoal, esta é mais uma obra de catarse pessoal, onde Thomson partilha todos os fantasmas que o têm assolado no que ao desenho diz respeito. Thomson sofre de fibromatose, uma rara doença auto-imune que lhe provoca dores nas mãos, e que muito provavelmente fará com que, a dado momento, deixe de poder desenhar.

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Dizendo carregar consigo “um sentimento de culpa de proletário e o síndrome do impostor”, Thomson coloca-se quase sempre no centro da narrativa, recordando “Blankets” como o livro em que conta como perdeu a fé – e que praticamente eliminou a irmã da foto de família -, falando da banda desenhada como algo que o ajudou a sobreviver à infância – e incerto sobre o que o ajudará a sobreviver à idade adulta -, da retirada da escola pelos pais – que consideravam que “a educação laica leva ao pecado” -, do amor que sentiu na visita à Coreia do Sul – mesmo com os seus livros a serem vendidos ilegalmente e online a 5 dólares -, ou explicando o processo que levou à edição de “Ginseng Roots” – mesmo com rejeições várias, tanto da editora como de uma possível transposição para filme.

Nesta viagem de auto-transformação – quase auto-dissecação -, Craig Thomson faz do ginseng uma metáfora para a vida – sobretudo a familiar -, um processo de cultivo e transformação mas, também, de erros e percalços que se atravessam no caminho: “O que significa cultivar? Trabalhar e aceitar que o labor é vão. Pois o que é precioso é o que permanece na terra acabado de revolver… todos aqueles filamentos quebrados”.

Ao nível cromático, Thomson faz-se valer quase unicamente do vermelho e do negro – e de tonalidades em seu redor – sobre a folha branca, em vinhetas que nunca deixam o leitor respirar – cada vinheta é sentida como uma página inteira. A viagem através desta história do ginseng deve ser feita lentamente, vinheta a vinheta, uma leitura que nunca deverá ser apressada. Não serão necessários 3 ou 4 anos como no cultivo do ginseng, mas uma leitura atenta e demorada saberá a recompensa. Uma coisa é certa: ficarão a conhecer quase tudo sobre esta planta milagrosa – e muito sobre a vida deste grande ilustrador.

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Pedro Miguel Silva

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