Serão uma trupe circense amante do trapézio? Frequentarão os corredores de uma comunidade seitânica? Andarão na companhia dos apanhados do clima? Darão formação nas artes do mindfulness? Nada disto – e de tudo um pouco. Quando falamos dos Unsafe Space Garden, sobretudo para quem já os conseguiu apanhar num concerto ao vivo, é difícil não pensar em Peter Pan, o rapaz que recusou tornar-se adulto. Porém, por detrás de um humor reflectido na indumentária de jardim-de-infância ou no tom quase infantil com que se apresentam, esconde-se o desejo de fazer deste mundo um lugar melhor.

“O Melhor e o Pior da Música Viológica” (gig.ROCKS!, 2026), disco lançado neste ano de 2026, é um disco conceptual sobre a inabalável crença no ser humano e, se há mantra que dele pode ser extraído e repetido enquanto se dança, é decididamente este: “a vida não é uma merda”, título do tema que encerra este longa-duração composto por 9 temas, autênticas montanhas-russas que se passeiam entre as substâncias psicotrópicas do rock psicadélico, o embalo do funk e o desembaraço da pop.
Nesta sua nova rodela – o quarto longa-duração -, a banda vimaranense formada por Alexandra Saldanha (voz e sintetizadores), Nuno Duarte (voz e guitarra), Filipe Louro (baixo e voz), Diogo Costa (sintetizadores e electrónica), José Vale (guitarra) e João Cardita (bateria) mantém o espírito de putos irrequietos, abraçando agora o português como língua exclusiva de um parque de diversões construído, da primeira à última faixa, por uma ideia de comunidade.

Em “Tás Aqui?”, profere-se um discurso de abertura que aposta no irrepetível agora – “Aqui não há nada convencional; Faz-se da memória o inimigo; Desfaz-se a lembrança de todo o mal; Em pólvora seca; Presente é o destino” -, enquanto se trata de agradecer a dádiva da existência: “Estamos vivos”; “FKNKU” é um festival de facadas, umas auto-infligidas, outras que chegam pela rectaguarda, fintando o karma obsoleto e os muitos obstáculos que o mundo se vai entretendo a atirar; em “Sítios”, indo ao encontro da ideia de sermos um outro – quem nunca? -, começa por pedir-se a desinstalação do nome ou a abolição do sotaque, até nos lembrarmos de que viemos, afinal, todos do mesmo lugar; “Abanemos ossos, articulações, músculos e capacetes”, canta-se em “Ser Humano”, tema que, por entre um relato de futebol conduzido por João Ricardo Pateiro, aponta à magia e ao potencial humano como fundadores do embalo – e farol – colectivo; “Mais Uma Voltinha” conta com a participação do coro dos Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos, mais uma vez para lembrar que “se calhar ainda vamos a tempo de nos salvar uns aos outros”; “Possível Dissolução Mental das Paredes” é música com marcação, uma ida ao consultório médico onde, por entre um claro problema de comunicação, se explicam as maleitas: “Eu tou com muitas paredes à minha volta”. Com o diagnóstico a recair numa egotite profunda, a prescrição passa por uma sessão de mindfulness e comprimidos de “luz incandescente interior”, tudo para acabar com as ideias de colocação de divisórias e compartimentos. “Já Não Há Pachorra” aponta ao revisionismo das emoções para “todos os que se sentem em estado crítico, sólido, críptico ou gasoso”, procurando serenar aquela inquietação que António Variações tão bem cantou; “Ode à Vida” ergue-se contra o entorpecimento e a inércia, fundando uma nova família que não seja necessariamente a da árvore genealógica; A fechar está “A Vida Não É Uma Merda”, um hino à positividade, até para aqueles que torcem o nariz à crença inabalável na fraternidade. “Mesmo que hoje não acredites… canta!”, dizem-nos os Unsafe Space Garden, crentes de que serão capazes de converter os mais sisudos num apelo à dança. Dancemos com eles.

A edição em vinil transparente é um mimo, assim como o design ao estilo jardim-escola, com a banda, depois de recebidas as devidas pinturas, transformada no sexteto titular que irá disputar a final dos campeonatos de recreio: Nunélio, Cuecas, Louro, Lecos, Baquitas e Zé Pedal. Venha de lá a taça!











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