“Deus ajudou-nos a conquistar a nação polaca, que agora tem de ser destruída; nenhum polaco deverá ter o direito à posse de terra ou de uma casa. Dentro de dez anos, os campos da Polónia estarão carregados de trigo e centeio cultivado e colhido por alemães – e não restará um único polaco.”
Assim decretava a política agrária alemã em 1941, cerca de dois anos após a súbita invasão da Polónia, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Uma das muitas vítimas desta política é Czeslawa Kwoka, nascida numa pequena aldeia no sudeste da Polónia e enviada para o campo de concentração de Auschwitz, juntamente com uma miríade de conhecidos e desconhecidos, para dar lugar a colonos alemães que nem sequer sabem cuidar dos terrenos que ocupam.
Czeslawa tem 14 anos, é católica e ignora o que são judeus. O pai, Pawel, a quem nunca foi muito chegada, é morto no meio de um grupo de agricultores que tentaram protestar contra o confisco de terras e animais. Czeslawa chega a Auschwitz com a mãe, Katarzyna, no dia 13 de Dezembro de 1942, e morre três meses depois. Da sua breve passagem pela Terra, restam três fotografias a preto e branco, obtidas por Wilhelm Brasse, um polaco filho de pai austríaco, que foi colocado a trabalhar no serviço de identificação do campo, onde eram arquivados os dados de cada prisioneiro. A partir dessas imagens e da informação disponível, Lily Tuck cria, em “O Resto é Memória” (Penguin, 2026), um romance tão breve quanto inquietante, no qual memórias estilhaçadas se cruzam com a brutalidade atroz de um presente até então impensável.
Sem idealizar a vida no campo, a autora confere uma certa magia ao estilo de vida rural polaco, integrando e explicando palavras nativas – e tradições como a decoração de ovos na Páscoa – sem que o texto se torne expositivo. Sabiamente, evita também a exploração sensacionalista dos horrores do campo de concentração, contendo-se ao relatar situações já representadas em diversos filmes e livros, sem deixar de nos levar a imaginar o que Czeslawa terá sentido.
Todavia, esta narrativa caleidoscópica, que combina facto e ficção, não é apenas a recuperação do que poderá ter sido a história desta jovem. Há também as tragédias paralelas da sua mãe, da amiga Krystyna, de Anton – o possível namorado que não chegou a sê-lo – e de muitos outros, com sonhos e aspirações que nunca chegaram a concretizar.
São os pequenos pormenores que mais entristecem e impressionam. Nas fotografias de Czeslawa, que o livro reproduz, nota-se uma mancha sob o lábio inferior. O fotógrafo Brasse, que sobreviveu ao campo, contou que viu um guarda – um criminoso polaco – bater-lhe na boca enquanto ela esperava na fila para ser fotografada. Através do tempo e do espaço, o seu olhar de “pássaro assustado”, que viu o mal na mais pura absurdidade, assombra-nos para além das palavras, numa interpelação que jamais terá resposta.











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