“As Peças Mais Pequenas” (Planeta Tangerina, 2024) é um convite delicado e divertido para se olhar o mundo com os olhos de um cientista… e a curiosidade de uma criança. Um livro que consegue fazer algo raro: falar do invisível de forma absolutamente encantadora.
Ao longo das páginas, o leitor encontrará um humor subtil no modo como o texto coloca perguntas que parecem simples, mas que abrem portas a outras perguntas e as reflexões várias: “De que são feitas as coisas?”; “Será que somos todos feitos do mesmo número de peças?”; “Já alguma vez fizeste perguntas à Natureza?”; “Até onde podemos dividir o mundo?”; “Como é que o Universo evoluiu, desde o seu início há 14 mil milhões de anos até aos dias de hoje?”; “Porque é que aqui estamos?”. É precisamente essa insistência nas perguntas, mais do que nas respostas, que faz deste um livro extraordinário, inquietante, perguntador, dialogante, divertido e, simultaneamente, um objecto belo. Porque, no fundo, é isso que move a ciência – e também a [nossa] vida.

O texto flui com uma leveza que permite que o leitor se esqueça dos conceitos complexos que vão surgindo. O complexo torna-se acessível e compreensível aos leitores mais jovens, aos não cientistas. De repente, o leitor (re)vê a história da ciência: os antigos atomistas, com uma piscadela de olho a Demócrito, enquanto este nos segreda que tudo é feito de partículas minúsculas; o cientista inglês Robert Hooke, “a primeira pessoa a ver células (…) em 1665”; Antoine van Leeuwenhoek um “notável cientista autodidacta e um grande inventor e construtor de microscópios”; o “físico austríaco Erwin Schrödinger [que] concluiu que os electrões não circulam em trajectos certinhos ao longo das linhas definidas. Sugeriu a existência de uma nuvem electrónica à volta do núcleo, onde os electrões podem estar em vários sítios ao mesmo tempo” – entre muitas outras referências da história da ciência.
A maravilha deste magnifico livro é que não aborda estas ideias como relíquias do passado – mostra como essa intuição antiga se desdobra, séculos depois, em descobertas sobre moléculas, neutrões, protões e electrões, palavras grandes que aqui se tornam amigas e acessíveis, levando a ciência a todas as pessoas.

As fantásticas ilustrações de Yara Kono dialogam, em plena harmonia, com o texto de Miriam Alves. São, simultaneamente, rigorosas e poéticas: formas geométricas, cores vibrantes e composições que parecem organizar o caos do mundo em padrões compreensíveis. Há algo de quase coreográfico na forma como os elementos visuais sugerem movimento e transformação, como se estivéssemos a observar átomos a dançar. As imagens tornam visível aquilo que, por definição, não se vê, e fazem-no com uma elegância singular.
“As Peças Mais Pequenas” é um livro de ciência, de grande descoberta. Mostra, ao leitor, que aquilo que não se vê, as “peças mais pequenas”, estão na base de tudo: do ar que respiramos, das emoções que sentimos, do que somos, da vida, das tecnologias que usamos, das perguntas que ainda não sabemos responder, lembrando-nos que viver é, também, continuar a perguntar. Extraordinário e belíssimo.











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