É, de entre os escritores que levaram para casa o Nobel da Literatura nos últimos anos, um dos incontestáveis. Nascido no Japão em 1954 – e residente na Grã-Bretanha desde os seus 5 anos -, Kazuo Ishiguro tem levado a literatura a uma nova dimensão, através de uma escrita onde o enigma e o insondável são a sua marca de água com assinatura. Os seus livros são construídos por níveis e camadas várias, atravessados por uma tranquila inquietação que acompanha o leitor muito tempo após virada a última página. Como diz o próprio, no prefácio à 20ª edição de “Nunca Me Deixes” (Gradiva, 2025 – reedição), o seu território é “esta terra de ninguém entre o que desejamos desesperadamente e o que sabemos serem os limites do possível”.
Trata-se de um romance comovente e habitado pela compaixão, que tem como narradora Kathy H., de 31 anos de idade, uma ajudante que tem a seu cargo vários dadores, cuja escolha obedece a critérios por si definidos: “pessoas que tivessem feito parte do meu passado e, sempre que possível, antigos alunos de Hailsham”, um lugar que tentou sem sucesso esquecer por diversas – demasiadas – vezes.
A história, que vive do presente e sobretudo de revisitações ao passado, centra-se num triângulo constituído por Kathy, Ruth e Tommy, todos eles em tempos estudantes em Hailsham, um colégio interno idílico situado algures na província inglesa. Criados numa redoma, uma bolha que os protegeu do mundo exterior e lhes permitiu uma educação de excelência, foram levados a acreditar que eram especiais. O que de certa forma se revelou verdadeiro, ainda que a verdade tenha um lado negro, tão negro quando o cenário do mangá The Promised Neverland: “Os alunos de Hailsham falavam da Galeria como se esta existisse realmente, se bem que, em boa verdade, ninguém tivesse a certeza disso. Como seria de esperar, não consigo recordar-me da primeira vez em que ouvi falar da Galeria. Mas tenho a certeza de que não foi através dos tutores: estes nunca mencionavam a Galeria e havia, entre os alunos, uma regra tácita que nos impedia de falar do assunto na presença deles”.
O leitor partilha da inquietação sentida pelas personagens, com a verdade a instalar-se através de curtos fragmentos, sussurrados nos corredores ou deixados cair por uma professora mais emotiva, isto até ao momento em que Ishiguro decide puxar o tapete aos personagens – e ao leitor -, deixando-os entregues a uma angústia existencial.
Com “Nunca Me Deixes”, Kazuo Ishiguro escreveu um romance notável e melancólico sobre a implacabilidade do tempo, mas também sobre amores não correspondidos, o desejo de dominação ou a culpa e o perdão, enquanto vai confrontando o leitor com o que representa, afinal, o significado da palavra “humanidade”. Se andam à procura de um romance perturbador e comovente, levem este para casa.











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