É o nome — Angine de Poitrine —, que parece saído de um relatório clínico gaulês; são as máscaras estrambólicas e os fatos às bolinhas; as vozes comicamente distorcidas; e depois há aquela forma de construir música, que parece escapar a qualquer lógica. Não admira que vários críticos e músicos os descrevam como “anti-AI”, porque nenhuma inteligência artificial no seu juízo perfeito poderia criar esta mistura.
Por detrás das fatiotas, esconde-se um duo anónimo de Saguenay, Quebec, que mistura math rock, psicadelismo e rock progressivo com métricas irregulares e microtonalidade, uma receita aparentemente indigesta que deveria afastar os ouvintes – mas não afasta.
O segundo álbum, “Vol. II”, tem vindo a ganhar uma visibilidade enorme, especialmente depois de uma actuação na KEXP, em Fevereiro deste ano, que imediatamente se tornou viral, com mais de dois milhões de visualizações na primeira semana.
Podíamos avaliar a banda pelos detalhes técnicos: as notas que escapam à escala normal; os ritmos irregulares; o híbrido de guitarra e baixo de dois braços que Khn de Poitrine toca (feito à medida por um artesão, com mais de 150 horas de trabalho); os marcadores de trastes fosforescentes, para compensar a visão limitada pela máscara.
Contudo, há algo mais importante do que a técnica. O que salta ao ouvido após algumas audições é o imediatismo desta música. Há um apelo contagioso que se sobrepõe à estranheza, e o groove da banda torna-se viciante. “Tento sempre tornar essas métricas estranhas de alguma forma digeríveis”, diz Klek de Poitrine em entrevista à Flood Magazine. “Gosto de navegar entre ritmos complicados e outros absolutamente dançáveis — criar tensão e depois libertá-la”.
É este espírito lúdico, esta recusa em se levarem a sério, que afasta os Angine de Poitrine de serem uma mera experiência intelectual de performance art. Veja-se “Fabienk”, por exemplo, o tema que abre o disco, com o sortilégio daquela guitarra que soa a tudo menos a guitarra. Ou “Sarniezz”, dotada de uma suculenta linha de baixo que nos leva a passear de mão dada pela galáxia. É bizarro, sim. Mas é também, no fundo, rock enérgico e contagiante, e isso sobrepõe-se a tudo o resto.
Ao vivo, são um espectáculo magnético: a excentricidade das máscaras e dos fatos às bolinhas está tão afinada com a música que tudo se reúne num organismo completo, dois seres alienígenas vindos do planeta groove. Há ali uma energia festiva, que nos leva a adivinhar um enorme sorriso por trás das máscaras.
No fundo, a receita é simples: guitarra, baixo, bateria, loops e camadas. O disco é quase todo instrumental — quando aparecem vozes, são mais um timbre na mistura do que um foco. O que nos prende é outra coisa: o diálogo entre os instrumentos e a forma como os ritmos crescem e se transformam. A química entre Khn e Klek é assombrosa, e só é possível entre dois músicos que se conhecem de cor há muitos anos.
Por agora, basta dizer que os Angine de Poitrine descobriram um filão raro: o de fazer música verdadeiramente estranha sem perder ninguém pelo caminho.











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