Aos 43 anos de idade, Fanny suicida-se, “farta de não poder viver como toda a gente”. Para trás, deixa um amigo de infância a debater-se com o enigma de uma mente que, a certa altura, “começou lentamente a dividir-se em vários elementos que já nada mantinha unidos”. Na memória deste homem, “ela é encantadora, alegre, cheia de autoridade e humor”, mas também dada a “crises de ódio e violência”, e capaz de ceder a impulsos como o de roubar um chapéu de leopardo. A palavra “loucura” é utilizada, embora o Narrador considere que Fanny contraria os estereótipos associados ao termo: “quando aquela grande amiga […] começa a fazer ou dizer coisas estranhas, inadequadas, mas não absurdas, apenas um pouco fora do normal, a palavra louca não vos vem de modo algum à cabeça”.
Sabemos que a irmã mais nova de Anne Serre sofria de um problema de saúde mental e acabou por cometer suicídio, por isso é inevitável presumir que tal experiência influenciou a escrita de “Um Chapéu de Leopardo” (Dom Quixote, 2026), livro finalista do Booker Prize International em 2025. A autora, que já recebera em 2008 o Prémio da Fundação Cino del Duca pelo conjunto da sua obra, apresenta aqui um texto surpreendente sobre a perturbação provocada por um desvio ao psiquismo considerado normal, tanto a quem vive sob o seu jugo, como a quem assiste às suas consequências.
O livro é composto por fragmentos de recordações e reflexões, de um Narrador que procura sinceramente compreender uma mulher que lhe é querida, embora, por vezes, se transforme numa desconhecida. Alguém que caracteriza como “um ser impedido”, no qual entrevê um buraco negro devorador de pensamentos. Os esforços que empreende para repelir a morte que pressente nela tornam a amizade bastante assimétrica, desempenhando ele o papel de cuidador, enquanto imagina a pessoa em que ela se teria tornado, “caso um dia o seu ser se não tivesse quebrado completamente dentro dela”.
Sendo ele um escritor, tem a noção de que usa Fanny para a sua arte: “À semelhança do material profuso da vida ao qual um texto dá forma e sentido, o caos e o mistério das emoções de Fanny exigiam ser trabalhados. Ela era o exemplo vivo daquilo com que um Narrador tem de se confrontar todos os dias, a todas as horas. Ela era um livro antes do livro”. O jogo literário é expandido ainda mais quando o Narrador se imagina ao serviço de um escritor fictício, integrando-se num artifício literário que seguimos com admiração desde o início, logo que nos apercebemos de estar perante um Narrador cujo pensamento é, ele próprio, narrado por outra entidade que espreita por cima do seu ombro. No final, ambos se eclipsam, para acompanharmos a mente de Fanny no momento em que a morte a liberta de todas as amarras. Assim se constrói um tributo da literatura à incognoscibilidade das múltiplas personagens que podem habitar numa pessoa.











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