“Alfredo e o Urso que Pedia Tudo Emprestado” (Nuvem de letras, 2026), de Gabriel Evans, aborda um tema complexo que, muitas vezes, não é falado de forma transparente. Referimo-nos à difícil arte de dizer “não”, dos limites nas relações de amizade – uma reflexão necessária e sensível.
Trata-se de um livro fantástico, delicado, bem-humorado e divertido, dialogante e perguntador, que coloca o leitor perante questões como estas: será que cuidar do outro também passa por sabermos cuidar de nós? Será importante saber dizer “não”? Porque é que, por vezes, é tão difícil dizer “não” a alguém de quem gostamos? Até que ponto devemos ajudar os outros, mesmo quando isso nos começa a fazer sentir desconfortáveis? Como podemos distinguir entre ser generoso e deixar que os outros ultrapassem os nossos limites?

A chegada de um novo vizinho, um urso aparentemente simpático, foi um motivo de alegria e contentamento para Alfredo, que o convidou para jantar em sua casa. O serão foi agradável, e a partilha de interesses semelhantes e do gelado de morango foi o começo de uma amizade. No entanto, na hora da despedida, o urso pergunta: “Pode emprestar-me as suas pantufas felpudas para aquecer os meus pezinhos gelados? Alfredo não gostava de emprestar as suas coisas. Mas era demasiado bem-educado para dizer que não”. A situação repetiu-se, e o desconforto foi crescendo a cada novo pedido.
Com uma linguagem marcada por um humor subtil, a narrativa acompanha o conflito interno da personagem, entre o desejo de agradar e a necessidade de se proteger. Sem nunca cair no moralismo, o livro abre espaço para uma aprendizagem essencial — partilhar é importante, mas saber estabelecer limites também o é. O não explicito do texto de Gabriel Evans é propicio ao diálogo e à leitura partilhada.

As ilustrações ampliam o sentido do texto, reforçando de forma expressiva a dimensão emocional dos personagens. A técnica tradicional, a lápis e a aguarela, oferece ao leitor uma aparentemente suavidade, que contrasta com a tensão crescente da narrativa. O uso da cor e da composição visual acompanha o percurso emocional das personagens, os cenários e enquadramentos, traduzindo visualmente aquilo que o texto apenas sugere. Entre o texto e as ilustrações há uma grande harmonia visual.
As guardas, iniciais e finais, desempenham um papel discreto mas significativo, sendo o leitor convidado a observá-las com muita atenção. Se as guardas iniciais antecipam a história, introduzindo o espaço da vizinhança e das relações, as guardas finais prolongam a leitura após o desfecho, permitindo regressar ao universo da narrativa com um novo olhar. Um cuidado gráfico que contribui para uma experiência de leitura mais imersiva. Um livro para ler e dar a ler.











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