Recentemente (entre 26 de Fevereiro e 29 de Março), o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, foi casa da exposição Exploratorius, da artista visual e pesquisadora Elaine Pessoa, que se situava entre a revisitação científica, o uso original da Inteligência Artificial e um renovado olhar sobre o colonialismo, a partir de textos científicos do geógrafo e explorador alemão Alexander von Humboldt e dos diários dos naturalistas, também alemães, Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius, que realizaram uma expedição científica pelo Brasil, entre 1817 e 1820, descrevendo a fauna, a flora, a geografia e os povos originários do país.
Paralelamente à exposição, a autora lançou dois livros de fotografia: “Exploratorius”, uma espécie de catálogo da exposição, e “Transitus Naturalis”, ambos com edição pela Fotô Editorial – o primeiro, em parceria como o Selo Turvo; o segundo, com a Rama -, editora da qual Elaine Pessoa é sócia. Dois livros soberbos, com aquele ar de edições raras que só os alfarrabistas conseguem descobrir e fazer regressar à vida, destinados a serem folheados com espanto e admiração.

Em “Exploratorius”, num primeiro e mais descomprometido desfolhar, descobrimos monstros, cabos da boa – e má – esperança por virar, mapas por decifrar e navios de bandeiras orgulhosamente desfraldadas. Numa leitura mais atenta, mergulhamos nos 7 actos nos quais o livro se divide: “Paisa ia gens” reúne montanhas, árvores e florestas, navegando entre o sépia, a côr de um filme em versão beta e um preto e branco emaranhado, num design superlativo entre a arrumação ao estilo de um álbum clássico de banda desenhada e o postal ilustrado; “Flora” deixaria Darwin orgulhoso, tal não é o aprumo e olho para o fascínio natural que encerra.
Há vários momentos de pura tela para emoldurar, acompanhados de registos de fotografias antigas ou ilustrações naturalistas; “Fauna” aponta os holofotes às borboletas e a outros seres esvoaçantes, mas também a répteis e a peixes. Isto até chegarmos a um momento Museu de História Natural, com um desfile de passarada que ganha o direito a ser gravado para a posteridade; “Gabinetes” merece, logo a abrir, um abrir de boca de espanto. Há por aqui, em exposição, verdadeiros gabinetes de curiosidades, arrumados com muita devoção, com objectos para todos os gostos, de animais empalhados a plantas cuidadas em frascos.

A partir daqui, começamos a descodificar as múltiplas camadas deste livro visual. Em “Por um outro imaginário dos trópicos nas Ciências Naturais”, Sabrina Moura apresenta uma contextualização e lança pistas ao leitor, a partir das anteriormente referidas expedições de Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius pelo Brasil, entre 1817 e 1820, que resultaram na fixação e difusão de imagens que ganharam ampla circulação e entraram em domínio público. Imagens que eram, segundo a autora, “uma visão equivocada dos povos indígenas”, “dissociadas dos seus contextos originais”.
Para Sabrina Moura, o que Elaine Pessoa quis neste Exploratorius foi “imaginar outros futuros possíveis para as representações produzidas nos relatos da viagem de Spix e Martius pelo Brasil”. Uma missão marcada por um uso deveras original da Inteligência Artificial, gerando imagens a partir de descrições textuais, a que se juntaram procedimentos manuais e químicos que atribuem “manchas e cicatrizes que alteram as representações históricas das paisagens brasileiras, suas florestas e biomas” – aproveitando a formação de Elaine Pessoa em Farmácia -, ensaiando, em última análise, “um outro imaginário possível dos trópicos nas Ciências Naturais do século XIX”.
No posfácio que encerra o livro, assinado por Cristiana Tejo, fala-se de paisagem e de história, da permanência de padrões colonialistas nas tecnologias de construção de imagens, propondo-se uma renovação da colonialidade e um exercício de desaprendizagem “do esquema imagético e do regime de verdade assentados em séculos de domínio ocidental”, algo que cabe à arte realizar.

Já em “Transitus Naturalis” dominam os dourados, veículo que Elaine Pessoa quis utilizar para nos colocar perante a apropriação colonial do ouro. Trata-se de mais uma viagem natural a uma “paisagem em deslocamento”, um foto-livro que propõe “uma história da paisagem às avessas” e que revela, tal como Exploratorius um carácter anti-colonialista, olhando a paisagem “como um lugar de invenção, de violência, de trânsito, de viagem, sobretudo como uma conjunção instável”, como escrevem Fabiana Bruno e Oscar Guarin Martinez no pequeno caderno que acompanha o livro, ao estilo de uma folha de sala.

Espera-se agora que a exposição Exploratorius possa circular pelo país, mostrando um novo e renovado olhar sobre um outro imaginário possível dos trópicos nas Ciências Naturais do século XIX. Até lá, passem os olhos por estes dois magníficos livros de Elaine Pessoa, destinados a serem admirados com muito vagar e ainda mais espanto.











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