Aproveitando o embalo – e o abalo – gerado por “Tempestade de Furacões” (ler crítica), a Elsinore fez uma viagem no tempo e resgatou “Isto Não é Miami” (Elsinore, 2025), um conjunto de textos assinados pela mexicana Fernanda Melchor que os apresenta desta forma: “O conjunto de relatos que o leitor tem nas mãos foi escrito numa tentativa de contar histórias naquela que considero ser a forma mais honesta possível: aceitando o carácter oblíquo da linguagem e aproveitando-a a favor da própria história”.
O resultado, esse, está uns furos abaixo de “Tempestade de Furacões”, romance proferido à velocidade da luz com muito crime e bruxaria pelo meio, que partiu de uma apurada investigação jornalística por parte da autora. Uma descida sentida, talvez, pelo facto de se tratarem de textos dispersos, escritos num intervalo de dez anos – entre 2002 e 2011 -, pequenas quase crónicas que, pelo aspecto fragmentado, retiram alguma da vertigem à sua escrita. Ainda assim, há motivos suficientes para dar a “Isto Não é Miami” uma leitura atenta, com relatos que se dividem entre Luzes, Fogo e Sombra, nome dos três actos em que se divide esta colectânea.
Nesta viagem, assistimos a um eclipse solar e caminhamos na vaga dos avistamentos de OVNIs, no encerramento da infância e dos mitos; escutamos um lamento operário por entre umas cervejas e recordações de tempos de contrabando; trabalhamos num turno da noite que nos faz pensar, de forma empática, que “às vezes, até o Diabo precisa de uma prece”; a partir de um acontecimento ocorrido no edifício da Lotaria Nacional, retrata-se uma cidade sem lei, onde os crimes são julgados de acordo com o estatuto social de cada um; ou, ainda, entramos numa prisão que virou cenário de um filme de Hollywood, assistimos à ascensão e queda de um barão da cocaína ou apertamos a mão a advogados para todo o tipo de serviço, de tudo capazes menos de responder a uma pergunta lançada como uma pedra da calçada: “Qual foi a coisa mais fodida que te aconteceu na vida?”. Um conjunto de micro-histórias de violência, arrependimento e culpa que nos mostram Fernanda Melchor num estado de experimentação.











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