Culpar um homem por um crime que não cometeu torna-se mais fácil quando se trata de um negro – eis uma das conclusões a que se chega em “Foi o Preto” (ler crítica), um romance onde Ângelo Delgado nos confronta com o racismo estrutural na nossa sociedade. Sendo filho de pais cabo-verdianos, assume que se inspirou em pessoas e histórias reais, e identifica sem reservas responsabilidades políticas na regressão a que se assiste na luta contra o racismo e a xenofobia – uma luta em prol da qual, felizmente, defende que algo pode ser feito.

Fala-se actualmente de uma regressão na luta contra o racismo e a xenofobia. Que impressões gostaria de partilhar a esse respeito?
A regressão nessa e noutras lutas tem que ver, em primeira instância, com um parlamento onde se dizem, com regularidade, atrocidades de vária índole. Se, na casa da democracia, esse discurso é normalizado, aceite e legitimado, o espaço público acaba por ser naturalmente contaminado. A ofensa voltou, pois, após uma breve pausa, a fazer parte do nosso quotidiano.
As personagens deste livro são inspiradas em pessoas reais, ou resultam mais de experiências que recolheu ao longo da vida?
São personagens ficcionadas, mas que têm como base pessoas e histórias reais: minhas, de amigos, de família. É um retrato feito através de dor própria e da observação do sofrimento daqueles que me eram mais próximos.
A narrativa contém várias referências a comida, com forte carga sensorial, ao nível do cheiro e do sabor, associadas a momentos de partilha. Até que ponto acredita que a alimentação é marcante na comunidade cabo-verdiana?
A comida é, na maior parte das vezes, uma excelente porta de entrada para a comunidade cabo-verdiana, a que podemos juntar a música e, até, a poesia, veiculada sobretudo através dos músicos. É à volta da mesa que estes momentos — além das inúmeras histórias contadas — se dão. Muitas vezes recordando o que se deixou para trás: Cabo Verde. Oscila-se sempre entre a alegria e a melancolia. Entre a coladeira e a morna.
Como sente que esta comunidade tem evoluído em Portugal?
Globalmente bem. Não sou especialista nem tenho um medidor para avaliar toda uma comunidade. Diria que houve momentos bastante críticos. Agora, decorridas algumas décadas, parece-me relativamente seguro afirmar que o balanço é positivo, ainda que deva realçar que o caminho foi espinhoso — e ainda o é hoje para alguns.

Nota-se, entre os familiares do protagonista, uma religiosidade acentuada. Apesar da injustiça, agarraram-se à ideia de um Deus “sempre justo, sempre certo” – embora a avó tenha uma experiência transformadora no final do livro. Como avalia o papel da religião no combate ou no apoio à discriminação?
A religião, no livro, é invocada precisamente para mostrar que problemas criados por homens e mulheres apenas por eles podem ser resolvidos. Nunca pela religião. Nunca pela espiritualidade.
Foi recentemente debatido, na comunicação social, um caso de racismo no desporto, e esta é precisamente uma situação vivida pelo Mauro, o irmão mais novo do protagonista, levando-o a abandonar o clube. Esta é uma personagem que vive com um desgaste constante, a que muitos reagem com indiferença. Mesmo sabendo que o problema é complexo, gostaríamos de saber a sua opinião acerca do que pode ser feito para mudar esta realidade.
Educar, formar, instruir. Desde cedo. Não catalogar. Contar a verdade da História do país, não procurando culpados no hoje que vivemos, evitando, também aqui, mais uma divisão na sociedade. E, por fim, mas bastante relevante: observar o racismo como um problema estrutural e não apenas como um desabafo proferido por alguns.
Como compara as vivências de racismo noutras comunidades com a que é sofrida pela comunidade negra?
Hoje, mais visada que a comunidade negra, é a hindustânica. Costumo dizer que os africanos estão no banco de suplentes. O alvo mudou. Com os africanos, havia — e há — a língua e a História como fatores de aproximação mas, por via disso, um entendimento real e direto das diferenças e das ofensas. A comunidade hindustânica não possui esse chão comum, por isso a percepção da discriminação deverá ser sentida de outra forma. Qual? Não faço ideia. Mas existe e de forma monstruosa.











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