“Deadbeat” (2025), o quinto álbum de Kevin Parker assinado como Tame Impala, foi um momento bíblico da cena indie, dividindo águas e lançando o debate sobre o novo caminho traçado pelo músico australiano. Um disco mais directo e menos espacial, com mais red bull e menos cogumelos mágicos, que conquistou uma nova geração – e manteve fiel parte de uma outra – com malhas capazes de levantar o Boom Festival nos momentos de maior acalmia.
Com lasers suficientes para filmar um volume extra de Star Wars, a tour europeia de Deadbeat arrancou com duas datas esgotadas em Portugal. Em Lisboa, a Meo Arena presenciou uma noite de glória absoluta para Kevin “Tame Impala” Parker, num concerto dividido entre dois palcos que se estendeu por cerca de duas horas e vinte minutos. Uma senhora festa a que não faltaram os confetti, disparados por mais do que uma vez.

Num palco semi-circular, que tanto parecia a armação de um navio como um canteiro onde repousavam raízes fantasmagóricas em crescimento, a festa começou com uma revisitação ao passado. Dos 9 primeiros temas apenas dois pertenciam a “Deadbeat”, que ainda assim viu 8 dos seus 12 temas serem tocados durante esta maratona (quase sempre) dançante. Nos ecrãs laterais serviam-se imagens embebidas em mescalina, cortesia de um realizador que circulava tão discretamente possível entre Kevin Parker e a sua banda, que esteve irrepreensível.
Sempre numa atmosfera carregada do melhor da ficção científica, que tanto ia beber à descodificação da língua falada em Arrival como na antecipação de uns Encontros Imediatos de Terceiro Grau, Kevin Parker ia mantendo aquele ar cool de quem está sozinho na sala de estar, fosse a solar na guitarra sob um foco de luz que ameaçava o teletransporte, a dar forte no falsete, a passear de cigarro aceso e cinzeiro na mão, a derramar copos de cerveja, a apelar ao “portuguese spirit” para socorrer um desmaio popular ou a perder-se em juras de amor a Portugal – “Portugal é um dos meus locais preferidos do mundo”, disse a certa altura -, relembrando que esta era a primeira vez que surgia num concerto em nome próprio no nosso país.

Momento para mais tarde recordar foi a viagem do palco principal para o palco secundário, um pequeno Palco B situado no meio da Meo Arena. Uma viagem filmada ao segundo, que incluiu uma ida à casa de banho onde aguardámos que Parker se aliviasse das cervejas consumidas em palco. Foi neste palco que, entre teclados, maquinaria e candeeiros que seriam uma boa companhia para a leitura, Kevin Parker se atirou aos momentos mais techno de Deadbeat, num triunvirato ao estilo de um volume da colectânea DJ Kicks que incluiu “No Reply” (em versão instrumental), “Ethereal Connection” e “Not My World” – e que, a dado momento, se transformou num “na cama com Kevin Parker”, repousando a cabeça numa almofada que parecia ter sido roubada à realeza, tudo para sentir as batidas que faziam vibrar todo um pavilhão.
Com vários momentos de coro popular, ou lanternas de telemóvel que simulavam um passeio por entre as estrelas, houve tempo ainda para Kevin Parker espreitar os cartazes das primeiras filas, brincando com o de uma aniversariante – com quem veio a tirar fotos pós-concerto, palavra de redes sociais – ou assinando, com o devido tempo, uma T-Shirt despida na hora por um fã. Numa noite de sonho, Tame Impala foi um Beatle na fase mais tresloucada de “Revolver”. Well done, mate.

Setlist:
Apocalypse Dreams
The Moment
Borderline
Loser
Breathe Deeper
Gossip
Elephant
Afterthought
Feels Like We Only Go Backwards
Dracula
B-Stage:
No Reply (Instrumental)
Ethereal Connection
Not My World
Let It Happen
Nangs
Obsolete
Alter Ego
Yes I’m Changing
Eventually
New Person, Same Old Mistakes
Encore:
My Old Ways
The Less I Know the Better
End of Sum
Créditos das imagens: Tiago Cortez / Everything is New
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Promotora: Everything is New











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