Há livros que parecem começar como uma investigação, e acabam por ser uma espécie de escavação e descoberta – não só histórica mas também emocional. “O Processo” (Gradiva, 2025) parte de um gesto aparentemente simples – a consulta de um arquivo da PIDE sobre um elemento da família -, para se transformar numa viagem pela memória, pela história recente e pelos laços invisíveis que atravessam famílias e gerações.
Inspirado numa história real, o romance acompanha Carolina, uma mulher que, a pedido do tio, antigo preso político do Estado Novo, decide procurar o seu processo nos arquivos da Torre do Tombo, descobrindo pelo caminho muito mais do que um processo judicial.
A atravessar também um período de transformação pessoal, Carolina encontra, além disso, fragmentos de uma vida marcada pela resistência mas também pelo amor, emaranhados e dados a conhecer pela escrita exímia de Dulce de Souza Gonçalves.
Um dos grandes méritos do livro encerra-se precisamente na forma como este transforma a investigação histórica em narrativa. Aquilo que poderia ser apenas um relato de memória política e de acontecimentos acaba por ganhar densidade literária, através de um mosaico de vozes e episódios que vão de Portugal até França ou Brasil, contados muitas vezes na primeira pessoa.
O romance percorre momentos-chave do século XX, como a emigração portuguesa para França nos anos 60 ou os movimentos de contestação política que marcaram os últimos anos da ditadura e a resistência ao regime e à sua opressão. Referências que nunca se impõem como lição de história, antes surgindo como ecos que se escutam na narrativa e ajudam a explicar como a História se infiltra, de forma silenciosa e muitas vezes imperceptível, na vida das pessoas comuns. Até porque, afinal, “a memória também nos prega partidas, desfaz o que nos destrói, alimenta o que nos consola”.
A escrita de Dulce de Souza Gonçalves revela uma segurança notável – reconhecido pela atribuição do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2024 -, tendo conseguido, com fluidez, fazer com que as mais de quatrocentas páginas avancem sem esforço excessivo. A sucessão de páginas é sustentada por uma prosa clara e emocionalmente próxima, que não cai no sentimentalismo fácil ou excessivo, encontrando muitas vezes a sua força precisamente nas entrelinhas, nos silêncios, nas hesitações e nas memórias que parecem, porventura, algo incompletas.
É também interessante a forma como o romance trabalha a ideia de herança, não só familiar mas também histórica. O processo judicial do tio Carlos torna-se a base para a reconstrução de uma história individual mas, também, de uma geração e período histórico, das vivências familiares e de amizades que acompanharam essa história. É um livro que se constrói como quem monta um puzzle de vidas, tempos e lugares, incluindo o da própria narradora – a sobrinha Carolina -, o seu momento de reformulação profissional e pessoal, sentimentos controversos e dúvidas quanto ao desafio auto-imposto de escrever o livro.
No final, “O Processo” acaba por ser menos um livro sobre um processo judicial e mais um romance sobre aquilo que permanece depois dele: a memória, os afectos e as marcas invisíveis deixadas pela história e os seus intervenientes, que podem ser qualquer um de nós ou elementos da nossa família. E talvez seja esse o elemento mais bonito do romance: o de mostrar que cada história finalmente contada é, também, uma pequena vitória contra o esquecimento.











Sem Comentários