“Um Principezinho” (Tcharan, 2023), escrito por Adélia Carvalho e ilustrado por Curidi, é um livro que se revela muito mais do que uma simples narrativa infantil. Trata-se de um convite a uma viagem introspectiva sobre valores humanos, questões éticas e existenciais, sobre o mundo e sobre nós próprios, um exercício à reflexão, à sensibilidade ética e à capacidade de olhar para além do imediato – um livro para (re)ler e revisitar.
Ao longo da leitura, o leitor acompanha um menino sensível, delicado e atento ao mundo, que viaja de ilha em ilha até chegar a África. Nas suas aventuras e desventuras, o menino encontra várias personagens que o questionam sobre a sua viagem e o seu desejo de regressar a casa. O questionamento e a reflexão, bem presentes ao longo da narrativa, contribuem significativamente para o crescimento e a singularidade do protagonista. A história deste menino, que não é um príncipe mas um “principezinho”, conduz o leitor a um universo de carinho, empatia e aconchego, e nunca para um universo de realeza.
“Tinha seis anos quando encontrei um velho livro ilustrado com imagens de África. Fiquei deslumbrado com todas aquelas paisagens, os animais, as pessoas, mas sobretudo com a cor, a cor do dia e da noite. (…) Vivia numa casa cheia de livros. Brincava com tudo, ficava horas deitado no chão a olhar para as nuvens e a desenhar com os olhos cavalos, ursos, coelhos, gatos e cães. (…) Continuei a crescer só em tamanho, na essência continuava a ser aquele miúdo curioso e a fugir da gente crescida. Escolhi a profissão de astrónomo explorador. Comprei um avião, enchi-o de mapas, alguns cadernos e lápis e fiz-me ao céu para descobrir coisas que ainda não haviam sido descobertas, nem sequer imaginadas, como ilhas desconhecidas, estrelas caidentes, astroletas. Astrofalantes, macaguiças, polfinhos, tubaleiras. Apontava-as no meu caderno e acreditava nelas.”

“Um Principezinho” é um livro sobre o olhar, sobre a curiosidade – esta é o motor de toda a narrativa. O protagonista explora o [seu] mundo com uma sede constante de descoberta, de questionamento. Cada encontro, cada experiência, cada detalhe, é uma oportunidade de aprender algo novo, para compreender o mundo onde o crescimento acontece.
Uma curiosidade que não é alheia à sensibilidade de como se olha o mundo. O acto de observar, com atenção, os detalhes e a beleza do que nos rodeia, possibilita uma reflexão sobre a amizade, a empatia e a relevância do invisível. O leitor interioriza a curiosidade intelectual e emocional, (re)aprendendendo a questionar preconceitos, a valorizar a diversidade, a imaginação, a afectividade e a reflectir sobre o que realmente importa na vida, e o impacto que as nossas acções podem ter nos outros e as dos outros em nós. “Um Principezinho” festeja o maravilhamento, o espanto e a capacidade de explorar, de aprender e de se sentir o mundo de forma profunda e consciente.
As ilustrações de Curidi criam uma atmosfera visual, enfatizando emoções transmitidas pela narrativa. O traço é delicado, poético e expressivo, simples e evocativo, com uma paleta de cores suaves que reforça a harmonia com o texto.
Vale a pena ler e dar a ler esta versão inspirada no Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, onde o leitor conhecerá um principezinho negro, tão diferente do estereótipo de um verdadeiro príncipe.











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