Quem diria que seria a partir de França, esse país dado ao pretensiosismo e conhecido pela arte de mal receber, que os lusitanos iriam dar um ar da sua graça, merecendo destaque maior nas aventuras de Astérix e Obélix? “Asterix na Lusitânia” (Asa, 2025), quadragésimo primeiro álbum da série, é a segunda história escrita por Fabcaro – Fabrice Caro no BI – e a sétima desenhada por Didier Conrad, e faz dos clichés tugas a sua poção mágica.

Tudo começa “numa bela manhã de Primavera, nos arredores de uma aldeia que bem conhecemos”, quando o mercador sazonal traz aos gauleses, além de púrpura de Tiro, seda de Luoyang ou mirra de Tebas, um lusitano que aproveitou a viagem de borla. Um tipo de bigode chamado Tristêz, que chega com espírito de missão, pedindo a Matasétix a ajuda dos gauleses para salvar Malmevês, um produtor de garum – um molho à base de peixe – acusado de tentar envenenar César, e que em breve será atirado aos leões.
A missão de salvamento é entregue à dupla maravilha, e é de Obélix, que começa desde logo por torcer o nariz ao bacalhau que parece estar em cada prato servido, a primeira descrição deste Tristês: “Oh, Astérix, ele deprime-me com estas tiradas sobre a esperança de ilusão de amanhã de amanhã e de anteontem” – uma outra forma de descrever a “melancolia lusitana”.

Fabcaro diverte-se a brincar com os muitos clichês associados à portugalidade, num álbum onde há referências a Viriato, pescadores, Vinho do Porto, Fado (há mesmo uma personagem chamada Amália), pastéis de nata, pedras da calçada, o eléctrico 21, azulejos, Galo de Barcelos ou Fernando Pessoa, não esquecendo observações gramaticais – “a língua portuguesa é muito traiçoeira” – ou mesmo um grito da revolução popular – “o povo unido jamais será vencido”. Ó Pá, um álbum obrigatório para novos leitores e admiradores de sempre desta série.











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