No livro “O Gene da Dúvida”, do grego Nikos Panayotopoulos, avança-se com a ideia do poder do marketing e da propaganda como construtores de mitos (alguns bem falsos), algo que faz com que, muitas vezes, a grande arte fique remetida a uma liga que, se não é dos últimos, não está ao nível do mediatismo de uma Liga dos Campeões. É certo que os These New Puritans não são jogadores amadores mas, depois de cinco álbuns editados entre 2008 e 2025, já poderiam estar a jogar numa das principais ligas europeias – ou, se o pensamento estivesse já na Reforma, a jogar nas Arábias.

A banda britânica, formada pelos gémeos Jack e George Barnett, chegou ao B.Leza (11 Fevereiro) com o fresquíssimo “Crooked Wing”, álbum editado em 2025 que eleva a música de câmara a património mundial. Um disco dramático e majestoso que, apesar de contar com participações como as de Caroline Polachek, nunca se desvia do guião, sendo os artistas convidados meros figurantes num álbum que parece evocar um mundo já desaparecido.
Envoltos num nevoeiro sebastiânico, Jack e George Barnett surgiram acompanhados por dois outros músicos, a que se juntaram também Elisa Rodrigues, no coro de cinco temas, alguém que, segundo Jack Barnett, “há muitos séculos atrás vem iluminando a nossa música” – e com quem a banda não tocava já há uma década.

“Bells” marca o arranque a dois tempos, depois de Jack pedir a intervenção do “electricista cá da casa”, seguindo-se um salto a “Infinity Vibraphones”, de “Inside the Rose” (2019), malha onde não é difícil imaginar um Quasimodo, em êxtase, acordando toda uma cidade pendurado nos sinos da sua catedral. “A Season in Hell” é noise industrial, uma canção que provavelmente os Massive Attack gostariam de ter escrito num dos seus guiões sobre o mundo em ruínas.
No espírito de David Bruno, Jack Barnett agradece a gentileza, levando-nos numa viagem que inclui a tumultuosa “We Want War”, uma inspirada versão de “Where The Trees Are On Fire” ou, a fechar, uma expansão de “Organ Eternal”, do disco “Field of Reeds” (2013), que encaixaria como uma luva numa qualquer temporada do Stranger Things. Um a um, os elementos da banda vão saindo, um final perfeito e teatral que tornaria supérfluo qualquer pedido de encore.

Palavra final e de muito apreço à ZDB, que continua a brindar-nos – dentro e fora de portas – com um cartaz de eleição. Nos próximos tempos vamos ter, entre outros, concertos com Caroline – autores do recomendado “Caroline 2” -, Eliana Glass – tecelã do fantasmagórico e divinal “E” – ou a colombiana Lucrecia Dalt – autora do excitante “A Danger to Ourselves”.
Fotos: Luís Pereira











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