Nos nossos dias, a filosofia ocupa um papel essencial na construção de um pensamento crítico, algo que torna a leitura do ensaio “As Fronteiras da Razão” (Gradiva, 2019) – com o sub-título “Um céptico racional num mundo irracional” – imprescindível.
Numa linguagem filosófica, rigorosa mas acessível aos que não são especialistas na área, parte-se da premissa de que vivemos numa era em que a racionalidade tem vindo a ser desacreditada ou mal interpretada. Julian Baggaini, o autor, defende que não basta apenas ter razões — é preciso compreender como a razão funciona e quais são os seus limites. A razão, para Baggini, não é uma ferramenta mágica capaz de resolver tudo sozinha, nem deve ser sacrificada em nome de emoções, tradições ou ideologias. Em vez disso, deve ser vista como uma capacidade humana essencial, que necessita de ser entendida correctamente se quisermos dialogar, debater e decidir de forma mais efectiva.
Poderíamos afirmar que o autor evidencia como, na actualidade, as “razões” são muitas vezes justificações pós-factos; isto é, as pessoas afirmam, muitas vezes de forma categórica, ter uma razão, mas mantêm-na apenas porque já a escolheram emocionalmente, o que cria um tipo de irracionalidade disfarçada de racionalidade. Esta é uma das ideias mais perspicazes do livro.
O livro apresenta as ideias de Julian Baggini ao longo de quatro capítulos. No primeiro, intitulado “O Juiz”, Baggini explora o conceito de razão e de como muitas pessoas pensam neste conceito como algo objectivo, imparcial e capaz de determinar a verdade absoluta. Pouco a pouco, o autor desmonta a ideia e vai mostrando que a razão depende de juízos, contexto e interpretação, que necessita de ser acompanhada de um trabalho hermenêutico e que nunca deveremos pensar que é infalível.

Num outro capítulo, o leitor é levado a reflectir se deveremos seguir a razão como único guia de acção. Será que esta determina tudo o que escolhemos fazer? O que nos leva a agir? Racionalidade e emoção serão complementares ou opostos, quando precisamos de tomar uma decisão?
Mais para o final, com a introdução do conceito de pluralismo, somos levados a questionar-nos sobre se uma sociedade verdadeiramente racional é aberta ao pluralismo. Baggini, muito próximo de uma ideia céptica, infere que a razão é indispensável mas limitada, que o seu valor consiste em fomentá-la colaborativamente e criticamente.
Um livro que nos ajuda a pensar melhor, sem cair em dogmatismos. “As Fronteiras da Razão” não se limita a defender a razão, provoca o leitor para que este possa reflectir criticamente, argumentar e dialogar.











Sem Comentários