Às primeiras linhas de “A Chuva que Lança a Areia do Saara” (Companhia das Letras, 2025), despojado de um mapa ou uma bússola literária, o leitor acreditará ter entrado numa máquina do tempo, assistindo na sombra a um improvável diálogo platónico. Tudo servido com acesas trocas de mimos, e vinho carrascão vertido em copos de 3 em tascas plantadas à beira de uma estrada que não recebeu nome.
O álcool – ou a falta deste – atravessa a circulação sanguínea de Firmino, uma das personagens centrais deste romance, que sem o ter pedido se vê a caminho de um lugarejo chamado Lobo Enforcado. Firmino, que sofre de uma “aversão mortal a pedras”, tem como trágico destino uma pedreira, “a última paragem para excluídos e desesperados”. O seu fado será trabalhar numa obra “que jamais vivalma visitaria para admirar”, ao ritmo de marteladas constantes que, se interrompidas, a todos mataria, interrompendo o sangue da aldeia de circular nos veios.

É neste lugar de desterro que Firmino descobrirá Ésfira, a “mulher que em lugar do nariz exibia uma funda depressão”, algo que não a impede de ser musa e rainha daquele pedaço de chão, dona do seu destino e de muitos outros – como o de Firmino, que será por ela reabilitado antes de ser atirado às pedras – e às feras.
Há, nesta geografia mapeada por Ana Margarida de Carvalho, personagens desenhadas com régua, esquadro e betoneira, sejam elas um cego e um exigente mestre-de-obras, que corrige o mínimo engano à bastonada, um jovem que desde cedo foi tratado como um anjo caído, um rei das tramóias e dos negócios obscuros, uma beata já sem lume que procura um isqueiro por estrear ou, ainda, um padre que protege, de forma interesseira, os cofres da igreja.
“A Chuva que Lança a Areia do Saara” é um romance trabalhado ao estilo de um filme em stop motion, um livro que requer, da parte do leitor, entrega total. A recompensa, essa, será grande, lembrando-nos, por entre uma travessia que vai da luta de classes aos atentados ecológicos, que por vezes “é preciso partir para poder regressar”, que a vida não passa de “uma encruzilhada de equívocos, falhas, imprecisões” que dura o instante “de uma pegada de areia” ou, como diria Bad Bunny, que o amor é mais forte do que o ódio.











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