“Há muito tempo, fiz uma promessa à minha mãe. Que iria à procura do primogénito que ela perdera. Onde é que eu estava com a cabeça?”. É mais ou menos esta a premissa de “A Espera” (Iguana, 2023), novela gráfica assinada por Keum Suk Gendry-Kim que, a partir de uma série de entrevistas e testemunhos, nos dá a conhecer o drama familiar causado pela divisão da Coreia e pela guerra.
A protagonista dá pelo nome de Gwijá, uma idosa de noventa e dois anos que vive na Coreia do Sul. Após sete longas décadas de espera, mantém vivo o desejo de reencontrar o filho mais velho, de quem se separou quando seguia numa coluna de refugiados que fugiam do norte da Coreia. Durante o percurso, quando parou para amamentar a filha bebé, perdeu de vista não apenas o filho mas também o marido, no meio de uma multidão impossível de parar.


No presente, num encontro anual que visa reunir familiares separados, uma amiga de Gwijá acaba por se reencontrar com a sua irmã mais nova, a quem não via há 68 anos, o que devolve a Gwijá alguma esperança. Porém, como diz a própria, é tudo “uma questão de sorte”, mas estar entre os 500 sorteados é já uma centelha de esperança. “Ainda vai haver mais um sorteio, por computador, como se fosse a lotaria”, e há também uma classificação que atribui mais hipóteses a quem tem mais idade.
A partir desta história individual, Keum Suk Gendry-Kim transporta-nos para a Guerra da Coreia de 1950, que separou famílias inteiras e as colocou de lados opostos de uma fronteira intransponível, ainda mais do que aconteceu na Berlim do pós-guerra. Um livro onde a autora lança um olhar ao sistema patriarcal, às oportunidades escolares diferenciadas, aos recrutamentos à força, ao cenário da pós-independência, à normalização da desumanidade e às emoções várias vividas em reencontros nem sempre felizes.

À semelhança do incrível “Erva” (ler crítica), o traço de Kim é dotado de uma força narrativa que vai muito para lá das palavras. É fascinante a forma como desenha a Natureza, fazendo dos seus desenhos poemas a preto e branco. Mais uma novela gráfica imprescindível, que nos dá a conhecer um comovente capítulo da história das Coreias.











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