Costuma dizer-se que a primeira frase de um livro é muito importante, capaz de despertar o interesse no leitor ou fazer com que este o atire de pronto para o esquecimento da prateleira. Beatrice Salvoni, escritora italiana que nos brindou com o recomendado “A Malnascida” (ler crítica), parece ter um talento nato para o pontapé de saída literário: “Pensei que tinha ficado adulta de repente, naquela noite. Em vez disso, a única coisa de que dei conta foi que não tinha os sapatos”.
É esta a frase de abertura de “A Malcriada” (Alfaguara, 2025), a conclusão do dípico iniciado com “A Malnascida”, que dá um salto temporal de quatro anos em relação ao livro anterior. Estamos em Monza, Itália, no ano de 1940. Francesca continua sem notícias de Maddalena Merlini – a Malnascida -, internada num hospício, que se recusa a responder a qualquer uma das muitas cartas enviadas por Francesca, que provocou um escândalo familiar ao ir viver com Noè Tresoldi – fazendo dela (também) uma filha amaldiçoada.
Depois de maquinações várias, algumas improváveis, Maddalena acaba por regressar, pequena como sempre e ainda mais magra, tentando viver como se os anos passados no hospício não tivessem deixado marcas. A sua relação com Francesca não mais será a mesma, sobretudo a partir do momento em que Maddalena se torna parte da alta roda da sociedade fascista, no momento em que a Itália entra numa guerra que acredita ir durar pouco tempo.

Para lá de uma história de amizade à prova de bala – com muito amor e sacrifício -, Beatrice Salvioni oferece ao leitor o retrato de uma Itália fascista em guerra, a braços com racionamentos, num olhar demorado e muito agradecido ao papel que as mulheres desempenharam no conflito, num país patriarcal que não as respeitava, ou aos muitos excluídos que foi deixando pelo caminho.
Um livro que cumpre, em pleno, a missão a que Salvioni se entregou na escrita deste díptico, mostrando que há coisas que nunca devem ser esquecidas: “A minha avó já cá não está, mas eu ainda paro a ler os nomes nas lápides, nas pedras de tropeço. E acho que, para nos tornarmos ao menos um pouco dignos da sua herança, é necessário não deixar de lembrar, de resistir, de contar histórias, de permanecer rebelde”. Veremos qual o próximo destino onde nos conduzirá a rebelde Beatrice Salvioni.











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