Profundamente enraizado na vida rural portuguesa do pós-25 de Abril de 1974, “A Cinco Palmos dos Olhos” (Casa das Letras, 2025) desenrola-se em Aldeia Velha, uma localidade fictícia que será palco das tensões e contradições típicas e habituais – ou não tanto assim – da vivência de uma pequena aldeia, marcada pelo período da Reforma Agrária pós-revolução.
Carlos Campaniço mostra aos leitores a forma como camponeses, latifundiários ou ex-combatentes da Guerra Colonial, reagem às mudanças abruptas que entraram pelas portas que Abril abriu, e à nova ordem social que alguns querem impor e outros se recusam a adotar.
Em vez de seguir um protagonista único, o romance constrói uma galeria de personagens que representam várias perspectivas da sociedade, da vida da aldeia e das diferentes personalidades de cada um. Do carteiro, de um ex-soldado ou de um padre enamorado até ao presidente da Junta defensor acérrimo da revolução do povo, o livro liga várias histórias, rumores, segredos e desejos, numa mistura de enredos dos habitantes de Aldeia Velha.

Fazendo uso de uma linguagem rica e envolvente, sem fugir ao ambiente rural, Carlos Campaniço expõe a nu muita da complexidade psicológica das personagens, que podiam bem tratar-se de personagens reais. A sua escrita ajuda a mergulhar o leitor no universo físico e emocional da aldeia, constantemente pautado pelas tensões sociais e pelos detalhes quotidianos.
O livro mostra o confronto com a nova ordem, trazida pela revolução e pelos hábitos antigos que persistem na comunidade, onde cada uma das histórias individuais se juntam para traçar um retrato maior de uma sociedade em transição. Mais do que um cenário, Aldeia Velha acaba por funcionar quase como uma personagem colectiva.
Para lá de um romance construído sobre um período histórico, “A Cinco Palmos dos Olhos” humaniza um período complexo da história portuguesa, explorando como as grandes mudanças impactam todas as pessoas, cada uma à sua maneira, mesmo aquelas que possam ter vidas (aparentemente) comuns ou monótonas. Uma obra que combina história, memória e literatura com uma voz própria, oferecendo uma imersão sensorial na vida rural e nos impactos da revolução de Abril. Sem idealizar ou simplificar.











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