“Um sistema que só funcionava porque todos acreditavam que estavam entre iguais”. Sejam bem-vindos ao cativante universo de Emma Cline que, em “A Convidada”, (Porto Editora, 2025) nos oferece um excelente retrato da luta – e das manias – de classes.
Alex, a protagonista deste curto mas empolgante romance, é alguém em fuga: a Dom, um ex-companheiro dono de um pequeno império do crime, sobre quem nunca é bom saber demasiado; e de uma cidade, à qual chegou com um nome falso e onde deixou de ser bem-vinda, sobretudo em bares de hotéis e restaurantes, esfumando-se um encanto que parecia poder durar para sempre.
No presente, Alex é namorada de Simon – mais um “totem doméstico”, como lemos a certa altura -, vendo nele a porta de entrada a uma vida sem remendos, usando para isso os seus dotes de mestre da representação. Porém, uma linha em falso faz com que Simon a descarte com uma boleia para a estação, levando apenas um bilhete de comboio para o regresso à cidade. Ao invés de aceitar a derrota, Alex decide permanecer neste limbo ilusório de transição de um mundo para outro, sobrevivendo como pode até à chegada do Dia do Trabalhador, onde irá rever Simon.

Emma Cline oferece-nos um thriller de classe(s), que mostra o desespero de se nascer num degrau muito inferior da escada social, ao mesmo tempo que lança um olhar letal e muito arguto sobre as classes privilegiadas, perdidas no seu paraíso de plástico e gelo: “Toda a gente dizia que aquele lugar era lindo. Quantas vezes é que se podia repetir isso? Era o consenso educado a que se recorria sempre, o enquadramento final de todas as coversas: um slogan que unia todos numa felicidade partilhada. E quem poderia discordar? Era um lugar tão bonito que as pessoas não precisavam de fazer nada. E, de facto, ninguém fazia nada, a julgar pelas conversas à mesa. Ninguém dava a impressão de se ocupar com nada, para além do já esperado: melhorar o backhand do ténis, cozinhar ao ar livre, dar um passeio antes que o dia fique demasiado quente”. Um livro muito original que, na sua aparente simplicidade, desce a uma grande profundidade. Uma autora para ficarmos decididamente de olho, e de quem a Porto Editora publicou também “As Raparigas”.











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