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Bartleby o Escrivão, Penguin Clássicos, Deus Me Livro, Crítica, Herman Melville
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“Bartleby, o Escrivão” | Herman Melville

Por Pedro Miguel Silva · Em 15/12/2022

Muito antes do quiet quitting, uma moderna demissão passiva que pretende evitar queimar o fusível – ou, como dizem our friends, o burnout -, já Herman Melville, o autor da enorme “Moby Dick”, havia lá chegado através de “Bartleby, o Escrivão” (Penguin Clássicos, 2022), e de uma linha que ficou para a história da literatura: “Preferia não o fazer” – que, estranhamente, aparece nesta nova tradução da Penguin Clássicos como “Preferia que não”.

“Acredito que não exista material para uma biografia total e satisfatória deste homem. É uma perda irreparável para a literatura”. Este homem é Bartleby, e a sua curta história ser-nos-à contada por um narrador idoso, que diz preferir a vida fácil à ambição, sobrevivendo na advocacia através do negócio entre acções e hipotecas e escrituras de homens ricos – prudência e método são as suas melhores qualidades.

No escritório deste advogado sobrevivente, encontramos um trio de criaturas fascinantes: Peru, um vaidoso homem na casa dos sessenta, pelo menos antes da hora de almoço – ou hora do meridiano -, momento em que se dá em si uma transformação; Pinças, que parece ter ar de quem numa outra vida se dedicou à pirataria, e que para o narrador é “vítima de dois poderes maléficos: a ambição e a indigestão”; e Gengibre, o chamado pau para toda a obra: “aprendiz da lei, moço de recados, faxineiro e varredor”.

O aumento de trabalho obriga à contratação de um novo elemento, momento que o narrador recorda como se nos mostrasse uma curta-metragem: “Parece que estou a ver a figura agora – palidamente composto, penosamente respeitável, incuravelmente perdido! Era Bartleby”. O início de Bartleby esteve para além do promissor, mas a verdade é que o estado de graça durou apenas três dias. Depois disso, surge o primeiro e tímido “preferia que não”, a que se vão sucedendo outros – e muitos – menos tímidos, transformando Bartleby numa “sentinela a um canto”, que não almoçava ou saía do escritório, sobrevivendo com bolachas de gengibre.

Será Bartleby um homem ou um fantasma – ou, a dado momento, um alter-ego do escritor? É talvez esta a inquietação maior deixada por Melville neste pequeno-gigante conto. À medida que o lema de vida – “prefiro não o fazer” – de Bartleby vai sendo adoptado, de formas distintas, pelos seus pares, percebemos que é nestes que a loucura vai progredindo, numa sociedade que em nome do lucro deitou a humanização às urtigas. Se Kafka tivesse sido caricaturado numa figura literária, Bartleby seria sem dúvida a escolha mais óbvia. Publicado anonimamente, em 1853, em dois números da Putnam`s Magazine, Bartleby continua a merecer vários regressos.

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Pedro Miguel Silva

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