“Estou muito contente por não saber o que vou fazer, e por fazê-lo contigo”. As palavras foram de Samuel Úria no lançamento da derradeira sessão de 2026 do Conta-me Uma Canção, projecto nascido no ano da nossa senhora da pandemia e que, desde então, tem recebido – num formato entre o concerto e a conversa – alguns dos mais talentosos e influentes criadores de canções cá do burgo, sempre com algum improviso pelo meio.

Úria, um repetente que marcou presença em quase todas as edições, acabou por juntar ao papel de músico convidado o de moderador, trazendo – ou tentando – para a conversa esse enfant terrible de seu nome Rui Reininho, que surgiu acompanhado à guitarra por Rui Maia – alguém em cujas playlists não entram Scorpions ou Iron Maiden.

Ao longo da noite, Samuel Úria atirou-se a interpretações próprias de “Em Caso de Fogo”, “Um Adeus Português”, “Era de Ouro” e “Fusão”, escolhendo “Borbujas de Amor” – original de Juan Luis Guerra – como canção alheia, enquanto que do extenso repertório de Reininho escolheu “Bellevue”, tocado num Casio que decidiu trocar-lhe uma nota, culpa de uma substituição não desejada mas necessária na marca das pilhas. Uma versão tocada num instrumento que Reininho descreveu como “uma máquina de falafels”, e que foi qualquer coisa como “a exéquia que eu queria”. Ainda assim, recusou um enterro precoce preferindo celebrar o tempo extra: “Ainda estou vivo, é um milagre”.

Reininho viajou entre a sua obra a solo e o repertório dos GNR, atirando-se a “Homens Temporariamente Sós”, “Piloto Automático”, “Yoko Mono”, “Fartos do Mar” e “Sete Naves” – o tema dos GNR que Maia e Úria partilham como o seu favorito -, escolhendo do cancioneiro de Úria o clássico “Teimoso”. Juntos interpretaram “Inferno”, o celebrado tema de Roberto Carlos, deixando para o encore uma versão curta mas transpirada de “USA”, onde Reininho vestiu a pele de Springsteen para gritar um nascimento fictício.

Nos momentos de conversa, nos quais Reininho nunca se quis alongar muito sobre o nascimento das canções – “Sete Naves” terá nascido de uma “frincha” sobre Santa Apolónia, numa meditação sobre o bulício de uma Lisnave ou de uma Setenave -, foi Úria a tomar conta das operações, recordando o primeiro e fortuito encontro entre ambos – numa final da taça do Jamor entre Leiria e Porto, onde Úria se saiu com um “Reininho és rei!” –, falando de Reininho como “um monumento” – ocasião que Reininho aproveitou para falar de felácios em palco – ou elegendo a expressão “desaperto-te o soutien” – do tema “O Slow Que Veio do Frio” – como um momento de auto-transformação – “o que fizeste na minha vida foi desapertar-me o soutien”, disse a um Reininho que se definiu como “um anarquista do bem”.

Rui Reininho, fiel a si próprio num registo perto do sit-up comedy, confidenciou não ser circuncidado, disse encostar o carro sempre que Úria passa na rádio, elogiou o espírito de luta dos escritores de canções – “não passou muito tempo entre o Zeca e os camaradas, as camisolas é que são diferentes” -, relembrou Armando Teixeira, imitou Morrissey, elogiou o espírito Flor Caveira como um dos expoentes do “indie nacional” e brincou com Úria e a referência deste ao “léxico expectável”. Léxico que, para nossa felicidade, ambos têm ignorado nessa arte de escrever canções.

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Fotos: Joana Linda
Promotora: Vachier & Associados











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