Em “Mudar de Ideias” (Dom Quixote, 2025), a espanhola Aixa de la Cruz leva a auto-ficção, essa obsessão da escrita e da literatura modernas, a um novo, abençoado e irónico patamar. Afinal, “só escrevem auto-ficção os senhores chatos e solenes e as senhoras judias”.
Um livro escrito na primeira pessoa, caminhando em pezinhos de lã em direcção à maturidade – o livro tem início com os 30 anos da autora -, no qual Aixa de la Cruz começa por confessar não ver ninguém há quase um ano, tudo em nome de uma tese de peso: “Habituei-me a dissecar a violência, a tomar notas sobre enquadramentos e planos, porque era a minha obrigação, porque escolhi fazer a minha tese sobre as representações culturais do terrorismo e não sobre a evolução do soneto petrarquiano”.
Trata-se de uma curta mas sumarenta obra, onde a autora aborda, sempre num tom confessional e prazerosamente indecoroso, vários temas, numa escrita brutal que soa muitas vezes como um terapêutico ajuste de contas: o vício da dor, a auto-mutilação – “os corpos existem para se quebrarem” -, amizades maléficas, bullying, sexo livre – “Cresci rodeada de homens porque tinha medo das mulheres, e só perdi o medo delas quando comecei a fodê-las” -, amor e ódio, o mundo editorial, as várias cidades que habitou depois de sair de casa dos pais, agressões sexuais, o perigo da noite, as diferenças físicas em situações de confronto, a misoginia, os papéis clássicos de género, o questionamento – e recusa – da maternidade – ou da mulher como uma “construção cultural” – ao invés de uma “determinação biológica”.
Um livro raivoso, sincero e confessional – “a confissão é a origem do nosso ofício” -, habitado por referências a Foucault, Sontag, Leonard Cohen, Disclosure, Virginie Despentes ou à agente Ripley – da saga Alien -, onde Aixa de la Cruz trata, ela própria, de o arrumar na estante – “Insisto que as barreiras entre crónica, memória, auto-ficção e ficção não existem, porque escrever é recordar e recordar é sempre um acto imaginativo.” -, fazendo do acto de mudar de ideias a liberdade suprema. Muito bom.











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