Para quem apenas conhece Georges Simenon através do Comissário Maigret e dos muitos policiais que deixou, “As Janelas Defronte” (Cavalo de Ferro, 2025) será certamente uma surpresa. Trata-se de um dos “romans durs” (romances duros, na tradução) que fazem parte da vasta produção literária de Simenon fora da órbita Maigret, o “romance russo” que o autor publicou em 1933, quando a natureza bárbara do regime Estalinista era ainda quase desconhecida o Ocidente.
O protagonista dá pelo nome de bei Adilm que, em finais dos anos 1920, chega à cidade portuária de Batúmi, no Mar Negro, para exercer funções de cônsul da Turquia. Uma cidade que é parte da recém-formada URSS – União da Repúblicas Socialistas Soviéticas -, sufocada por um ambiente repressivo e em vigilância constante.

Incapaz de se adaptar a uma população hostil e quase sempre esfomeada, acolhido de forma distante pelos seus supostos pares, incapaz de compreender a língua que todos falam e perdido numa máquina burocrática de dimensões épicas, bei Adilm terá em Sonia, a sua jovem secretária e intérprete, uma obsessão a raiar a loucura, que o fará sair para fora das linhas vermelhas impostas, de forma nem sempre clara, por um regime que vive escondido nas sombras.
Com um certo toque Kafkiano, sobretudo com as pontes que constrói com “O Processo”, “As Janelas Defronte” é um livro atento ao detalhe, que escava fundo na psique humana numa cidade que parece estar anestesiada, e que com uma certa amargura aponta a tristeza, a solidão e a resignação como “nuvens protectoras”, formas de sobrevivência a um estado totalitário, controlador e brutal. Dentro destes romans durs de Georges Simenon, a Cavalo de Ferro publicou também “A Neve Estava Suja” e “A Casa dos Krull”.











Sem Comentários