É com uma escrita soberba e mordaz que Cláudia Andrade se apresenta em “A Ressurreição de Maria” (Elsinore, 2025), fazendo uso de uma linguagem cuidadosamente trabalhada numa prosa pulsada de tensão, sem se entregar ao sentimentalismo fácil.
A obra consiste numa junção de nove contos, a maioria de grande intensidade, mas com alguns menos memoráveis. O conjunto é no entanto íntegro, funcionando como um espelho de medos, desejos e ausências.
A ausência de algo – seja amor, uma pessoa ou uma determinada presença – é, aliás, um ponto assente nas diferentes narrativas, o que muitas vezes conduz ao desenrolar da acção e a consequências nefastas e imprevisíveis. Com um alto teor emocional, os contos abordam sentimentos como desejo, culpa, arrependimento, frustração ou mesmo um grande vazio emocional, com Cláudia Andrade a não evitar ambiguidades: há incerteza e espaço para que cada um desenvolva as suas próprias percepções.

A autora utiliza os contos não para confortar mas para inquietar, onde cada frase parece ponderada para apresentar imagens muito visuais, numa estética que mistura o lírico e o brutal, o pior e o melhor, o belo e o feio, numa representação algo extrapolada da realidade e vivência humana – mas que não deixa de, por vezes, fazer match com a realidade.
A fragilidade humana, que Cláudia Andrade não enfeita ou embeleza – antes escavando o que de mais profundo há nessa vulnerabilidade, expondo-a cruamente -, também é uma vertente central nos contos, onde a ironia e a crítica ao idealismo são uma presença constante. As histórias convivem com a melancolia de várias personagens, mas recusam resignar-se ao conformismo.
A autora consegue assim uma obra algo singular, com a combinação de humor ácido, melancolia e uma imagética visual forte, sendo que o grau de melancolia e de desapontamento pode pesar em alguns leitores, sobretudo aqueles que apreciam desenlaces claros e uma reconciliação emocional com o que estiveram a ler.











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