• Mil Folhas
  • Música Com Cabeça
  • Cine ou Sopas
deusmelivro
A fábula cinematográfica; Jacques Rancière; Orfeu Negro
Crítica, Mil Folhas 0

“A fábula cinematográfica” | Jacques Rancière

Por Nelson Ferreira · Em 06/07/2014

Antes de mergulharmos de cabeça no intelecto labiríntico de Jacques Rancière, um breve apontamento de louvor à Orfeu Negro pelo cuidado que tem com o aspecto das suas edições. Se porventura o conteúdo fosse pobre (e não é), ao menos ter-se-ia uma estante embelezada pelo catálogo da editora que tem uma dualidade de critério peculiar, no sentido mágico da coisa, entre a prosa erudita e a literatura infantil.

Posto isto, um segundo começo ao presente texto. O conjunto de ensaios previamente dispersos, bem como inéditos, que integram “A Fábula Cinematográfica” (Orfeu Negro, 2014), foram retrabalhados pelo referido Rancière com o âmbito de permitir uma maior fluidez entre capítulos. A edição ganha por se demarcar do parente pobre que lhe associamos, o da compilação de artigos publicados e/ou discursos de palestras transcritos ipsis verbis, sem preocupação alguma pela maldita redundância.

Aos que se aventurarem na leitura da Fábula, não existe um percurso certo para descodificá-la, aliás, o apreender global do seu conteúdo implica uma dedicação que nem todo o leitor estará disposto a ter. Daí que o mais importante será a abertura a novas perspectivas, formular ideias, despir o cinema de qualquer artifício ou dogma que se tenha imbuído no imaginário colectivo, ou seja, nos preconceitos indisciplinados dos espectadores que exigem que se cumpra a norma. Existem, por isso, dois ritmos de leitura em “A Fábula Cinematográfica”; o do cinéfilo que já papou os cânones, as escolhas menos óbvias e as mais esquecidas, indivíduo que acompanhará as descrições de Rancière sem esforço; o do aprendiz (ou mero entusiasta), que se esforça por visualizar os planos descritos, na esperança que a imaginação se assemelhe àquilo que algum dia verá. Este segundo prezará o “índice de filmes citados” que figura no fim do livro, pois terá sugestões para ver até ao fim dos tempos (exageros à parte, oh internet, o quanto facilitas a vida) – talvez, nesse aspecto e paradoxalmente, a Fábula sirva também de introdução.

fabula-cinematografica_inside

Para acompanhar o raciocínio de Rancière, é preferível que se abandone a ideia de que o cinema é uma força artística composta por uma soma de outras artes, agrilhoada pelos ancestrais ditames da literatura e dramaturgia clássica, ou, com o advento da televisão, pelos condicionalismos das grelhas de programação e anúncios publicitários. O autor propõe uma emancipação das demais vertentes que compõe o cinema através de uma exploração atípica e desconstrução das partes, sendo que cineastas-chave (F.W. Murnau, Chris Marker, Jean-Luc Godard, Alfred Hitchcock, entre outros) desbravaram terreno, com todo o mérito, naquela que é uma arte jovem e por isso ainda a revelar potencialidades. Através da sua poética, daquilo que se esconde debaixo do visível, o cinema afirma-se fulcral para a memória (e composição da história) universal. Agora, esperam-se novas cadências e rumos em detrimento da influência da Antiguidade Clássica e a estagnação intelectual do fast food criativo.

Para teorizar as fabulações do “olho mecânico”, é crucial quer a compreensão dos vícios do cinema, quer o seu estado da arte. Trata-se de ir além da nossa percepção imediata, além daquilo que reveste o mise-en-scène. Para isso serve a literatura ensaística. Mesmo sendo o cinema uma arte autónoma, capaz de se afirmar como a manifestação cultural última da humanidade, convém recorrer à velhinha palavra escrita para descortinar os enigmas contidos nas imagens em sequência. Não basta só ver e ouvir, é preciso também o outro tipo de ver, a leitura.

A fábula cinematográficaJacques RancièreOrfeu Negro

Nelson Ferreira

Pode Gostar de

  • O Céu da Língua, Gregorio Duvivier, Deus Me Livro, H2N Culture Connectors, Mil Folhas

    Gregorio Duvivier volta a mostrar-nos O Céu da Língua

  • 5L, 5L 2025, Deus Me Livro, Edite Guimarães, Entrevista, Mil Folhas

    Entrevista: Edite Guimarães apresenta-nos o 5L

  • O Som da Mentira, Amy Tintera, Deus Me Livro, Crítica, Singular, Mil Folhas

    “O Som da Mentira” | Amy Tintera

Sem Comentários

Deixe uma opinião Cancelar

Siga-nos aqui

Follow @Deus_Me_Livro
Follow on Instagram

Mil Folhas

  • O Céu da Língua, Gregorio Duvivier, Deus Me Livro, H2N Culture Connectors,

    Gregorio Duvivier volta a mostrar-nos O Céu da Língua

    08/05/2025
  • 5L, 5L 2025, Deus Me Livro, Edite Guimarães, Entrevista,

    Entrevista: Edite Guimarães apresenta-nos o 5L

    08/05/2025
  • O Som da Mentira, Amy Tintera, Deus Me Livro, Crítica, Singular,

    “O Som da Mentira” | Amy Tintera

    07/05/2025
  • Dentro da Tenda, Lucie Lučanská, Deus Me Livro, Crítica, Planeta Tangerina,

    “Dentro da Tenda” | Lucie Lučanská

    07/05/2025
  • Um Lugar Luminoso Para Gente Sombria, Mariana Enriquez, Deus Me Livro, Crítica, Quetzal,

    “Um Lugar Luminoso Para Gente Sombria” | Mariana Enriquez

    30/04/2025
Acha o Deus Me Livro diferente? CLIQUE AQUI.

Archives

  • May 2025
  • April 2025
  • March 2025
  • February 2025
  • January 2025
  • December 2024
  • November 2024
  • October 2024
  • September 2024
  • August 2024
  • July 2024
  • June 2024
  • May 2024
  • April 2024
  • March 2024
  • February 2024
  • January 2024
  • December 2023
  • November 2023
  • October 2023
  • September 2023
  • August 2023
  • July 2023
  • June 2023
  • May 2023
  • April 2023
  • March 2023
  • February 2023
  • January 2023
  • December 2022
  • November 2022
  • October 2022
  • September 2022
  • August 2022
  • July 2022
  • June 2022
  • May 2022
  • April 2022
  • March 2022
  • February 2022
  • January 2022
  • December 2021
  • November 2021
  • October 2021
  • September 2021
  • August 2021
  • July 2021
  • June 2021
  • May 2021
  • April 2021
  • March 2021
  • February 2021
  • January 2021
  • December 2020
  • November 2020
  • October 2020
  • September 2020
  • August 2020
  • July 2020
  • June 2020
  • May 2020
  • April 2020
  • March 2020
  • February 2020
  • January 2020
  • December 2019
  • November 2019
  • October 2019
  • September 2019
  • August 2019
  • July 2019
  • June 2019
  • May 2019
  • April 2019
  • March 2019
  • February 2019
  • January 2019
  • December 2018
  • November 2018
  • October 2018
  • September 2018
  • August 2018
  • July 2018
  • June 2018
  • May 2018
  • April 2018
  • March 2018
  • February 2018
  • January 2018
  • December 2017
  • November 2017
  • October 2017
  • September 2017
  • August 2017
  • July 2017
  • June 2017
  • May 2017
  • April 2017
  • March 2017
  • February 2017
  • January 2017
  • December 2016
  • November 2016
  • October 2016
  • September 2016
  • August 2016
  • July 2016
  • June 2016
  • May 2016
  • April 2016
  • March 2016
  • February 2016
  • January 2016
  • December 2015
  • November 2015
  • October 2015
  • September 2015
  • August 2015
  • July 2015
  • June 2015
  • May 2015
  • April 2015
  • March 2015
  • February 2015
  • January 2015
  • December 2014
  • November 2014
  • October 2014
  • September 2014
  • August 2014
  • July 2014
  • Contacto