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Monstra 2023: o lado maroto de Osamu Tezuka

Por João Vintém · Em 15/03/2023

Osamu Tezuka é, muitas vezes, considerado “O pai do manga”, “O padrinho do anime” ou, simplesmente, “O Deus do manga”, devido às suas técnicas pioneiras, produção serializada, redefinição de géneros e temáticas abordadas nas “histórias aos quadradinhos”.

Desde a primeira publicação de “Astro Boy”, em 1952, que os seus mangas e animes tiveram um impacto tremendo na formação da psique da juventude japonesa do pós-guerra. Não obstante, abandonou os mangas mais adolescentes (Shōnen manga) no final da década de 1960 para escrever algumas das suas histórias mais negras e complexas, direccionadas ao público adulto (Gekiga manga), e que apontavam o dedo à sociedade japonesa. Obras como “Ayako”, “MW” ou “Apollo’s Song” são exemplos da ambição de Tezuka, que corajosamente reflecte sobre o lado mais obscuro da condição humana e da sociedade japonesa. Se não bastasse a revolução visual e narrativa no meio impresso, alterou ainda o conceito do desenho animado japonês, transformando-o numa forma de arte e incorporando uma variedade de estilos de animação.

Entre 1969 e 1973, o autor japonês aventurou-se na produção de longas-metragens de animação para adultos e, através do erotismo, pôde experimentar novas técnicas e estilos de animação. O resultado foi “Animerama”, uma série de três filmes produzidos no seu estúdio de animação Mushi Production e, de certa forma, a resposta do cinema de animação aos filmes pinku e de exploitation que brotavam dos estúdios da Nikkatsu e Toei. Dois desses filmes serão exibidos na 22ª edição da Monstra – Festival de Animação de Lisboa, na secção XXX da retrospectiva dedicada ao Japão, o país convidado deste ano.

Dia 21 de Março, às 23h00, é exibido “As Mil e Uma Noites” (1969), produzido por Osamu Tezuka e realizado por Eiichi Yamamoto, uma versão x-rated dos contos do clássico árabe num registo psicadélico que só peca por ser, talvez demasiado, um produto do seu tempo. Conta-nos a história de Aldin, um simples vendedor de água, que embarca numa série de desventuras fantásticas pelo Médio Oriente em busca de amor, dinheiro e poder.

A direcção artística do filme é magnífica, utilizando técnicas mistas e sequências surrealistas com uma animação detalhada, fluída e movida ao som do rock ‘n roll. Se, visualmente, é uma experiência que vale por si só, a abordagem problemática de etnia e género, assim como o ritmo inconstante imposto pela estrutura episódica, são elementos que acabam por minar o filme.

Segundo o próprio estúdio, o primeiro filme erótico de animação “foi feito numa perspectiva de alcançar a aceitação mundial. Sessenta mil funcionários foram contratados e a personagem principal inspirada na fisionomia do actor Jean Paul Belmondo. A maior parte da musica é rock, destinada a chamar à atenção do mercado internacional”.

Osamu Tezuka e companhia retiraram desta primeira experiência uma grande lição: para obter sucesso mundial deverão entender a diversidade cultural e a sua origem. Veja-se portanto a obra de Eiichi Yamamoto como um produto do seu tempo e, se a representação de um muçulmano a comer carne de porco não é acertada, “As Mil e Uma Noites” é uma montanha-russa recheada de méritos artísticos, cores vibrantes e uma banda sonora muito groovy assinada por Isao Tomita, compositor pioneiro da música electrónica. Razões mais do que suficientes para ver ou rever esta obra no grande ecrã.

No dia 23 de março, às 23h00, é exibido “Cleopatra” (1970). Talvez para não cair no mesmo erro do filme anterior, assume totalmente a sua veia absurda e revira a História do avesso. No século XXI, os humanos conseguiram avançar para o espaço, e notaram que os residentes extra-terrestres de um planeta chamado Pasateli estão a conspirar “O Plano Cleópatra”. Para descobrir do que se trata o plano, três humanos são transferidos para o Egipto durante o ano 50 a.C. Nessa altura, o Egipto era invadido pelo Império Romano, e Cleópatra queria tornar-se a mulher mais bela do mundo para poder iludir e tomar o controlo de Júlio César, que neste filme é um gigante verde.

A grande força do filme de Eiichi Yamamoto e Osamu Tezuka, que partilham a realização, é a sua liberdade, de saltar rapidamente entre géneros, conceitos e estilos sem pedir permissão. Assim como em “As Mil e Uma Noites”, os momentos de pura criatividade (a encenação do assassinato de Júlio César como uma peça de teatro kabukié absolutamente maravilhosa, assim como a sequência inicial em imagem real) contrastam com alguns gags e piadas mais datadas. Porém, “Cleopatra” nunca é um filme aborrecido, e a sua energia descontrolada é contagiante. Pura diversão exploitation, Tezuka e Yamamoto experimentam com o “mau gosto” num filme que merece mais atenção e que conta novamente com a colaboração de Isao Tomita na banda sonora.

É impossível falar destes filmes sem falar das cenas de nudez e sexo, mas a classificação “filme para adultos” não deve ser motivo para afugentar os mais púdicos. A maior parte da nudez é abordada de forma cómica, na boa tradição do anime, e as cenas de sexo são (quase) sempre artísticas, com toques surrealistas. Estes dois primeiros filmes do projecto “Animerama” são, acima de tudo, comédias que encontram no erotismo e na forma dos corpos a força motriz da sua animação.

Se os dois primeiros filmes são obras quase surrealistas, “Belladonna of Sadness” é um filme impressionista, uma série de pinturas em aguarela que se transformam ao som da música de Masahiko Satoh. Realizado por Eiichi Yamamoto com total liberdade artística, o terceiro filme é sem dúvida o mais famoso do tríptico e, apesar de não fazer parte da programação deste ano, congratule-se a 22ª edição da MONSTRA por exibir “As Mil e Uma Noites” e “Cleopatra”, duas pérolas esquecidas do cinema de animação mais maroto.

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João Vintém

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