Arrancou ontem, com o regresso de Scandar Copti a Espinho a propósito da estreia nacional da sua nova longa-metragem “Happy Holidays”, a edição 2025 do FEST – Festival Novo Cinema, Novos Realizadores, que se irá estender até ao próximo dia 28 de Junho.
A competição Lince de Ouro traz um conjunto de longas onde o humor e a crítica social são motores de resistência. Um dos destaques é “Mad Bills To Pay” (Or Destiny, dile que no soy malo), estreia de Joel Alfonso Vargas e vencedor do prémio especial do júri em Sundance — uma comédia dramática sobre a vida de uma família dominicana em Nova Iorque. Em “Peacock“, o austríaco Bernhard Wenger regressa com um retrato sarcástico sobre as máscaras sociais, combinando sátira e crítica relacional. “Manas“, da realizadora luso-brasileira Marianna Brennand, explora a violência de género numa comunidade amazónica com coragem e sensibilidade. Já “Cactus Pears“, estreia de Rohan Kanawade, traz uma história de amor LGBTQIA+ na Índia, confirmando a vitalidade do cinema indiano actual.
Com um olhar atento ao presente, o FEST 2025 reforça a sua programação internacional de longas com títulos que abordam os dilemas morais, políticos e sociais do nosso tempo. Entre os retratos do íntimo e do colectivo, “Spring Came On Laughing“, de Noha Adel, revela as vidas escondidas de mulheres egípcias numa narrativa interligada e emotiva. “Lessons Learned“, do húngaro Bálint Szimler, é uma alegoria crítica ao sistema educativo e à opressão política, protagonizada por uma jovem professora e um estudante. Já “The Good Sister“, de Sarah Miro Fischer, confronta a violência de género e os dilemas familiares com coragem e crueza.
A guerra e as suas consequências marcam também a programação da competição. “Songs of Slow Burning Earth“, de Olha Zhurba, regista em tom sensorial os dois anos da invasão russa à Ucrânia, com o olhar de uma geração que insiste em imaginar o futuro. “To Close Your Eyes And See Fire“, de Nicola von Leffern & Jakob Carl Sauer, mergulha no rescaldo da explosão no porto de Beirute através de múltiplas personagens e sensibilidades artísticas. Da Dinamarca, “A Place in the Sun“, de Mette Carla Albrechtsen, oferece uma crítica melancólica sobre o impacto do turismo e a desumanização dos destinos de férias.
Na produção portuguesa, “C’est pas la vie en rose” (na foto), de Leonor Bettencourt Loureiro, encerra o festival. A realizadora regressa a Espinho com uma obra que observa a Lisboa contemporânea e as tensões da gentrificação através da história de uma dupla de músicos estrangeiros que decide viver na capital.
O Grande Prémio Nacional, com quatro programas e 23 curtas-metragens, dá palco a novos autores e a temas como a crise da habitação. Destacam-se a comédia “Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver“, de Filipe Amorim, o documentário “Business as Usual“, de Pedro Vinícius, e “Fragmented“, de Balolas Carvalho e Tanya Mara, com nova referência à Palestina. No campo da ficção, surgem obras como “Arriba Beach“, de Nishchaya Gera — um thriller erótico com Inês Herédia — e “O Tempo das Cerejas“, de Clara Frazão Parente, sobre o corpo e a experiência feminina. A competição inclui ainda novos filmes de Welket Bungué, Henrique Prudêncio, José Freitas e do estreante Luís Filipe Borges.
A secção Lince de Prata apresenta uma selecção internacional de curtas inovadoras e provocadoras. Entre os destaques está “My Mother is a Cow“, de Moara Passoni (Brasil), um conto de realismo mágico que teve estreia em Veneza; “Inflatable Bear, Hourly“, de Elisabeth Werchosin (Alemanha), uma abordagem surreal às dificuldades laborais de uma imigrante em Berlim; e “Karmash“, de Aleem Bukhari (Paquistão), um thriller com raízes tradicionais e linguagem de género, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Outros títulos a destacar incluem “Wassupkaylle“, uma sátira ao universo dos influencers e à busca desesperada por atenção; “Lux Carne“, de Gabriel Grosclaude (Suíça), que imagina um futuro distópico em que matar os animais que consumimos se torna lei; e “The Age Of The Flowing Plants“, de Magali Ugarte de Pablo (México), uma fantasia de auto-descoberta feminina.
Este ano, o cinema como espaço de resistência política surge também no foco dedicado à Geórgia na secção Be Kind Rewind. Num momento em que o país vive uma forte mobilização contra ameaças à sua soberania democrática, o festival apresenta um programa de curtas e longas-metragens de autores como Rusudan Glurijdze, Elene Mikaberidze e Tornike Koplatadze — uma nova geração que se tem destacado pela ousadia formal e pelo compromisso com o presente.
O programa de masterclasses do FEST 2025 reúne uma seleção notável de profissionais do cinema internacional e nacional, com sessões distribuídas entre 23 e 28 de Junho. Scandar Copti, Martin Percy, Filipe Carvalho, Gonçalo Galvão Teles, Guillermo Garcia-Ramos, Edison Alcaide, Nick Page, Chris King, John Cameron, Jens Petersen, Paul Davies, Kaveh Farnam, Philippe Rousselot, Katie Byron e Brillante Mendoza são alguns dos nomes em destaque, oferecendo perspetivas valiosas sobre realização, produção, direcção de arte, montagem, som, música e indústria cinematográfica.
Com uma programação ampla e diversa, o FEST 2025 posiciona-se como um palco de interrogação e imaginação, onde o cinema serve de espelho e motor de transformação. Entre histórias de resistência, lutas sociais e visões do futuro, o festival continua a ser um espaço onde o olhar crítico e poético encontra o mundo.











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