Costuma dizer-se, qual provérbio ou mezinha literária, que não se deve julgar o livro pela capa. O que, no caso do novo romance de Joana Bértholo, é bem capaz de ser verdade. No FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, a capa de “Do Amor e de Outros Fantasmas” (Editorial Caminho, 2026) foi um dos temas falados na apresentação do novo livro da escritora, que a juntou à jornalista Ana Relvas França, “uma apresentação especial por ser uma conversa entre duas amigas, uma conversa espontânea e pouco estruturada” – palavra de Bértholo.
“O título tem qualquer coisa de provocatório e de arriscado. Abre muito e ao mesmo tempo condiciona, no contraste que mistura amor e fantasmas. O titulo acabou por chegar na recta final do processo. Não queria que fosse uma compilação de textos dispersos, e isso vem do romance, queria trabalhar numa certa ideia de unidade. A imagem da galáxia é boa para isso. Apesar de os textos serem de galáxias muito distantes, pertencem ao mesmo universo. Aquilo que os atravessa é uma ausência, as ideias de morte e de perda, a imaginação e a fantasmagoria que projectamos no outro mas que não está lá”.

É desta forma que Joana Bértholo nos apresenta esta viagem pela sua galáxias, a bordo de uma nave que, segundo Ana Relvas França, não faz muitos quilómetros em Portugal: “É um acto de coragem escrever um livro de contos num pais onde não existe essa tradição”. A própria escritora confessou ter sentido o desinteresse quando, a meio de uma conversa, vinha à baila o género em que estava a criar: “Senti que quando as pessoas percebiam que era um livro de contos perdiam o entusiasmo. No meu caso, há livros da literatura portuguesa em conto que marcaram o meu imaginário”.
A mudança da maratona para os 400 metros barreiras foi muito bem-vinda por Joana Bertholo, adepta de corridas longas: “Identifico-me com o romance pela forma, por poder passar muitos anos dentro do mesmo universo. Durante a escrita deste «Do Amor e de Outros Fantasmas», podia todos os meses entrar num universo diferente. Foi essa a descoberta e o fascínio de escrever contos: podia trocar de planeta quando quisesse. Daí serem contos todos muito diferentes”.

Um caminho que teve os seus acidentes, obrigando a um acto de poupança muito mais rigoroso, como quem gere um orçamento familiar apertado. “Notei que para chegar aquilo que eu considero um bom conto, com tensão, mistério e outros ingredientes que considero essenciais, tinha que trabalhar com a subtracção e o silêncio, sobre saber e dizer o mínimo. Que existisse algo de misterioso sem ser tão aberta como a de um romance”.
Ana Relvas França tenta descobrir o fio condutor, aventurando a hipótese de ser a nostalgia a tricotar esta malha estampada com fantasmas. “Nostalgia é o título de um dos contos. De facto, é um livro muito nostálgico, mas também sobre a morte, a fantasmagoria da perda e a saudade. Sobre o amor e as coisas maiores, sobre aquilo que nos liga uns aos outros e nos interroga qual é o nosso lugar em tudo isto”.

Já na recta final, é alguém do público a levantar a questão da escolha gráfica da capa, dizendo que apenas o tinha comprado por ver nela impresso o nome de Joana Bértholo – uma espécie de selo de qualidade. A autora falou depois sobre o processo complicado de chegar à capa final. “Sabia que a capa tinha de ser uma galáxia. Há quem diga que o resultado final se aproxima de uma leitura esotérica. Também já tive feedbacks positivos. Sou teimosa e extremamente intuitiva, não queria abrir a mão do cosmos. Foi um exercício de experimentalismo, aberto à possibilidade do risco e de as coisas poderem falhar. No mercado ninguém quer tomar riscos, mas tomar um risco seguro não existe. Sabia que poderia ser um tiro ao lado e que muitas pessoas a rejeitassem. Tenho um livro que por vezes acaba na secção de natureza («Ecologia»), outro na de História («A História de Roma»). Se este for parar à estante da auto-ajuda acaba por ser super coerente”. Há (não assim) muito tempo, numa galáxia muito, muito distante (ou na livraria mais próxima), há um novo livro de Joana Bértholo para descobrir.
Fotos: Luísa Velez/ Deus Me Livro











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