Há livros belíssimos, que permanecem em nós muito tempo depois de os termos fechado. Livros aos quais regressamos várias vezes, porque exigem tempo, silêncio e distância para serem verdadeiramente pensados e admirados. Há livros que nos pedem para ser contemplados demoradamente, como quem observa uma paisagem, procura uma resposta no horizonte ou tenta escutar aquilo que as palavras não conseguem dizer. “M Como o Mar” (Orfeu Negro, 2026), de Joanna Concejo, é um desses livros, extraordinariamente belo, precioso, delicado e profundamente poético. Nele, a narrativa constrói-se tanto através das palavras como das imagens e, em muitos momentos, é a ilustração que acrescenta espessura, emoção e profundidade ao que é contado. Aqui, a verdadeira narrativa nasce precisamente do encontro entre palavra e imagem, entre aquilo que se diz e aquilo que apenas a imagem consegue sugerir.

M. é um rapaz de quem sabemos pouco; apenas a inicial do seu nome e que já não é uma criança, mas também (ainda) não um adulto – talvez um adolescente. Sentimos, porém, que carrega dentro de si emoções que não consegue, ou não sabe, transformar em palavras. Há tristeza, inquietação, raiva, desejo e uma espécie de esperança. Na praia, diante do mar, M. grita sem que nenhum som pareça sair da sua boca, e deseja ser mar. É a partir desta imagem, aparentemente simples, que Joanna Concejo constrói uma narrativa interior sobre o crescimento, a identidade e a procura de um lugar no mundo.
Concejo é económica nas palavras. Dá, ao leitor, espaços de silêncio que ganham sentido através das ilustrações, possibilitando uma aproximação do leitor ao protagonista, aos seus pensamentos, às suas memórias e à compreensão daquilo que permanece escondido nas entrelinhas. O leitor é convidado a observar, relacionar, imaginar, interpretar e sentir.

A delicadeza do traço, a atenção aos pequenos detalhes e a paleta de cores, contida e predominantemente fria, criam uma atmosfera simultaneamente melancólica e luminosa. Há uma sensação de distância, silêncio e espera, mas também momentos de calor e memória. O mar ocupa, naturalmente, um lugar central. Não é apenas o cenário onde M. se encontra, surge como uma poderosa metáfora. O mar é imenso, misterioso, imprevisível e impossível de aprisionar. Quando olha para o mar, M. questiona-se: Quem estará do outro lado, para lá do lugar onde as ondas desaparecem? A pergunta parece dirigir-se ao desconhecido, mas poderá ser, afinal, uma pergunta sobre si próprio: quem sou eu e onde pertenço?

“M Como o Mar” é um livro que não se esgota numa primeira leitura, para ler e reler. Ao qual regressar, sempre que possível, a uma página escolhida ao acaso, descobrindo um detalhe que anteriormente nos havia escapado, estabelecendo uma relação entre duas ilustrações distantes ou, ainda, perguntando o que aconteceu antes ou depois de determinado momento.
Uma narrativa densa sobre o crescimento e as emoções, para sentir e questionar: Aquilo que não conseguimos dizer pode ser mais verdadeiro do que aquilo que conseguimos explicar por palavras? Precisamos de pertencer a algum lugar, ou podemos construir a nossa própria identidade sem pertencer a nada? É possível conhecer verdadeiramente aquilo que outra pessoa sente? Ser livre significa poder escolher ou poder ser aquilo que realmente somos? M. pode(rá) ser qualquer um de nós.











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