Um grupo de músicos que apoia a sua proposta numa forte utilização da electrónica, conjugada com a experiência do jazz mais libertário, escolheu o título de uma obra de Goya para designação. Em inglês, respondem por The Sleep of Reason Produces Monsters, mas em castelhano a coisa é ainda mais interessante: El sueño de la razon produce monstruos. Sueño, tanto significa “sono” como “sonho”… e Goya não terá sido ingénuo na ambiguidade.
Quatro músicos em palco, dois sopros – saxofone e trompete –, forte presença electrónica, uma voz militante de quando em vez, uma bateria imponente a marcar um ritmo igualmente possante. Sem paragens, quase hora e meia de música, deambulando e percorrendo o espaço, com solos competentes e uma ideia musical bem concretizada.
Mariam Rezaei (n. 1984) e Lukas König (n. 1988) já tinham integrado a programação do Jazz em Agosto em 2025. Ela, inglesa, trabalha com gira-discos (turntables) e electrónica, e é directora artística do TUSK Festival, um evento anual em Inglaterra, que aborda música experimental, filmes e palestras. Ele, austríaco, é um intenso baterista, que talvez possa reclamar alguma herança musical a Günter Müller, tendo tocado com gente como Steven Bernstein, Jamaaladeen Tacuma, Briggan Krauss, David Murray ou Elliott Sharp.

Desta vez vêm acompanhados pelo italiano Gabriele Mitelli (n. 1988), responsável pelo Trompete piccolo, bastante eletrónica e oportunas vocalizações) e a saxofonista (alto) dinamarquesa Mette Rasmussen (n.1988). Mitelli, que já colaborou com o Conservatório de Lisboa e o Instituto Italiano de Cultura, também por cá, carrega um currículo descomplexado, onde cabem nomes como Mats Gustaffson, Julien Desprez, Tobias Delius, Ken Vandermark, Wayne Horovitz, Susanna Santos Silva ou Rob Mazurek (com quem gravou “Star Splitter”, em duo absoluto), mas também a cantora pop Cristina Donà. Por seu lado, Rasmussen trabalhou com grandes nomes da improvisação, como Chris Corsano, Fire! Orchestra, Ken Vandermark ou o mítico Alan Silva.
Mal subiram ao palco, a noite começou com toda a energia colocada em ambos os sopros, sem preâmbulos ou ante-câmaras. As manipulações dos pratos e a destacada bateria acompanhavam a função, movimentando-se com liberdade. A voz de Mitelli surge amiúde, com eco, enquadrada no ambiente. Depois, entrega também as suas mãos à electrónica, explorando padrões repetitivos, obsessivos. Juntamente com a intervenção de Rezaei abraçam cenários quase dançantes (por alguns momentos somos levados a questionar o que o House e a sua batida laboratorial possa ter trazido para o Jazz mais contemporâneo), enquanto o saxofone de Mette Rasmussen soa deslizante, mais calmo agora, socorrendo-se da cortina de fundo que toda parafernália electrónica permite introduzir.

Lukas König (que também deu uma mãozinha em alguns botões e engenhocas, recorrendo a um som algo vintage) mostrou-se muitíssimo sólido ao longo de toda a noite, senhor de uma noção rítmica consistente e de um confronto voraz com as peles, quando se torna assim necessário. O que acontece várias vezes, principalmente na segunda metade da sessão.
Por entre toda esta convivência de sons, a gravação de um alaúde soa como uma surpresa, integrado num manto planante, espacial, antes de um dueto empenhado que junta o saxofone e a bateria.

Mariam Rezaei é o epicentro de todas as movimentações, introduzindo fragmentos de voz ou um baixo digitalizado, que rapidamente se toma de cumplicidades pelo trompete de Mitelli.
Numa fase adiantada, Rasmussen manipula uns chocalhos de conchas, antes de protagonizar um diálogo com o trompete de forma límpida e acessível, como se uma apresentação de pós-bop se tratasse. É assim o Jazz, permite-se viajar entre memórias e espólio não lhe falta. Num momento de jazz-dance-dj fun as vozes sintetizadas participam na construção do ritmo, o saxofone ergue-se explorando a paleta de agudos, rumo ao desenlace de toda esta viagem, com um poderio assinalável, Mitelli ao comando, debitando texto (onde se percebe repetidamente “power” mas, sejamos francos, pouco mais), König implacável (o homem é mesmo uma locomotiva a toda a brida!). Um conjunto consistente de movimentações, que aterra, demonstrando missão cumprida.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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