Loucura, trauma, relações familiares, religião, ritos e tradições populares. É este o menu que poderá ser degustado em “Corpo de Cristo” (Iguana, 2025), uma novela gráfica que é uma pequena maravilha, assinada e ilustrada pela espanhola Bea Lema.
“Eu nasci a 31 de Janeiro de 1985”. Quem o diz é Vera – um outro nome para a própria Bea Lema -, a pequena protagonista deste livro, que desde criança se habitou a conviver com um demónio que assombrava a sua casa, atormentando uma mãe cuja ausência e crises passaram a ser regulares.

A mãe “sentia que tinha um demónio dentro do corpo. Uma possessão”. É desta forma que as crises da mãe começam a ser tratadas, até à entrada em cena das consultas de psiquiatria, que lentamente irão conduzir a um diagnóstico que não encaixa de todo com a sombra religiosa.
“Corpo de Cristo” mergulha na relação entre uma mãe doente e uma filha que foi obrigada a tornar-se adulta muito cedo, responsável pela hercúlea tarefa de cuidar de uma mãe a braços com uma doença mental de proporções gigantescas. Ainda assim, esta é também uma história de amor, de dedicação, capaz de sobreviver à passagem do tempo e a todos os estigmas e preconceitos lançados por uma sociedade com dificuldade em abraçar a diferença. Uma criança que não teve tempo de o ser, lidando também com o alheamento do pai, que fazia tudo para não passar tempo em casa, ou com a irmã, que saiu de casa para não lidar com o Apocalipse familiar.

Ao nível do desenho, Bea Lema dá um recital de criatividade e engenho, recorrendo a uma multiplicidade de técnicas, uma estonteante utilização da cor ou um traço que é também ele um objecto de escrita, adaptando-se às várias fases de vida de Vera e da sua mãe. Destaque para a forma como Bea Lema usa os próprios bordados como ilustração, contando, a certa altura, a história da sua mãe em tecido, algo que intercala com relatórios médicos e cartas de internamento, num retrato múltiplo de uma doença mental que foi um terramoto familiar antes de ser diagnosticada como tal. Uma história triunfal de amor e superação, que estará a caminho de se transformar numa curta-metragem.











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