Em 1992, Umberto Eco acedeu aos muito pedidos da republicação de “Filósofos em Liberdade” (Gradiva, 2025). O autor conta, desta forma, a história do nascimento deste livro: “As vinhetas sobre a história da filosofia já tinham sido feitas (…) ao longo de alguns encontros na Universidade de Turim. Encorajado pela resposta do mundo científico, acrescentara depois as ladainhas, que tinham sido lidas nos bares da praça San Marco, em Setembro de 1958, durante o Congresso Internacional de Filosofia em Veneza, perante um auditório composto pelas mais belas mentes filosóficas do nosso país – mais alguns estrangeiros italófonos. (…) O alto ideal ético que dominou cada uma destas exercitações conviviais foi sempre o de uma absoluta correção científica. E sirva isso de aviso para as gerações futuras: brincar sim, mas seriamente”.
Trata-se, dentro da área da divulgação filosófica, de uma obra singular, que se distancia dos tradicionais manuais académicos ao propor uma abordagem criativa, irónica e acessível à história da Filosofia, transformando o pensamento filosófico numa experiência simultaneamente literária, crítica e lúdica.
Um dos aspectos mais originais do livro é o facto de estar escrito em verso, o que introduz ritmo, leveza e musicalidade, tornando mais apelativas e memoráveis as ideias complexas. Além disso, Umberto Eco rompe deliberadamente com a imagem séria e pesada frequentemente associada à Filosofia. Recorrendo à poesia e à paródia, mostra que o pensamento rigoroso pode coexistir com a criatividade e o humor.
O texto fala-nos, também, da importância da liberdade dos filósofos – Pré-socráticos, Aristóteles, René Descartes, I. Kant, Karl Marx entre outros – e dos escritores – como por exemplo Marcel Proust, Thomas Mann, J. Joyce.
Ao longo da história, o pensamento filosófico desenvolveu-se precisamente porque houve quem ousasse questionar certezas estabelecidas, desafiando dogmas e propondo novas formas de interpretar o mundo. Umberto Eco valoriza essa liberdade intelectual, como condição essencial para o progresso cultural e civilizacional. Os filósofos, tal como os escritores, precisam de autonomia, liberdade, espaço e tempo, para pensar, imaginar, criticar e questionar. Sem liberdade, o pensamento fica fragilizado e a Filosofia poderá por em causa o sei verdadeiro valor: interrogar a realidade e abrir possibilidades de reflexão. Esta defesa da liberdade articula-se com duas correntes filosóficas particularmente evocadas na obra: o existencialismo e a filosofia analítica da linguagem. Eco convoca estas tradições para mostrar que, filosofar, implica tanto questionar a existência como examinar cuidadosamente os instrumentos linguísticos através dos quais pensamos.
Vamos encontrando, em algumas páginas, caricaturas – 15 desenhos originais do próprio Umberto Eco – que funcionam como comentário crítico. Ao transformar algumas das grandes figuras da Filosofia em representações visualmente expressivas, Eco humaniza-as e desmonta a ideia de que os filósofos pertencem a um universo inacessível ou distante.
“Filósofos em Liberdade” é um livro original. Recorre à ironia, à intertextualidade e ao humor, suscita a curiosidade e introduz os leitores no mundo da Filosofia, evidenciando que esta área do saber poderá ser ensinada, dialogada e partilhada com humor, imaginação e liberdade crítica.











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