A liberdade de escolher a ocupação, a vida amorosa, de integrar grupos com interesses partilhados, de obter informação fiável, de exprimir opiniões, de aceder à justiça em situação de igualdade com todos os outros cidadãos, de seguir a própria consciência em matérias de crença, de dispor de um domínio inviolável de privacidade, de ter uma palavra a dizer quanto às regras sob as quais se vive, de discordar e defender alternativas… Todas estas liberdades estão associadas à democracia. Todavia, muitos dos que vivem em regimes democráticos sentem que estes não respondem devidamente as suas necessidades e aspirações, tornando-se presas fáceis para movimentos que tiram partido dessa insatisfação para enfraquecerem a democracia e implementarem alternativas autoritárias – as quais eliminarão pelo menos algumas das referidas liberdades.
Acreditando que aquilo que as democracias proporcionam é demasiado precioso para se perder, Anthony Clifford Grayling apresenta, em “Para o Povo: Combater o Autoritarismo e Salvar a Democracia” (Penguin, 2026), uma análise lúcida dos desafios que elas enfrentam actualmente, seguida por propostas de reformas exequíveis e urgentes.
Uma das reflexões interessantes que o autor tece, e que está subjacente a tudo o resto, diz respeito aos “equívocos em torno da palavra «povo»”, invocada sempre que se defende que “o governo existe, ou deve existir, para benefício do povo”. Em oposição à falácia do maioritarismo – a crença de que a democracia consiste em privilegiar as preferências da maioria –, o autor salienta que os direitos individuais e as liberdades civis existem precisamente para evitar a opressão das minorias. Impõe-se, portanto, uma interpretação sensata da vontade manifestada por qualquer maioria – ela própria composta por várias minorias –, à luz da diversidade de vontades entre a população.
Outro tema central é a influência do grande capital na política, com destaque para o poder transnacional de “entidades multinacionais gigantescas”, que escapam à jurisdição de governos individuais e contribuem para a desigualdade social que os populistas exploram. Como não poderia deixar de ser, a forma como estes organizam campanhas poderosas de propaganda, beneficiando dos algoritmos das redes sociais, também é abordada.
O autor aceita que “nada pode ser perfeito nos assuntos humanos”, mas insiste que vale a pena lutar por um ideal democrático, tanto para aperfeiçoar o que existe, como para evitar retrocessos nas lutas históricas que associa ao progresso em termos de direitos humanos. A sua luta é apoiada em documentação recente e em factos que podemos constatar no quotidiano, que assustadoramente seguem o guião de regressão para o autoritarismo que o autor descreve. O resultado, sendo “apenas” um livro, é algo que só pode existir livremente se a sociedade conseguir evitar que os mecanismos democráticos sejam usados para substituir a democracia por uma tirania: “Numa democracia poderá ler-se um livro como este; num Estado autoritário poderia ser, e provavelmente seria, proibido fazê-lo, caso em que o autor e o leitor se poderiam encontrar na mesma prisão, o primeiro por o ter escrito e o segundo por o ter lido”.











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