Gosto particularmente de casas. A minha casa. A(s) casa(s) de família(s) e a(s) da minha memória. As casas de férias e dos amigos. O espaço “casa” deverá ser entendido como um abrigo físico, mas essencialmente como um espaço simbólico onde é construída a identidade. Mais do que paredes e objectos, a casa é um território emocional: um lugar onde nos reconhecemos e ao qual regressamos — mesmo quando já não existe senão na lembrança. Nesse sentido, a casa funciona como uma espécie de extensão de nós próprios, reflectindo quem somos, o que valorizamos e as relações que nos definem.
“A Casa Azul” (Orfeu Negro, 2025) é um livro que sublinha a casa do ponto de vista simbólico, representando a pertença, a estabilidade e a continuidade, mas também a transformação; que nos confidencia que habitar uma casa é, assim, mais do que ocupar um espaço: é dar-lhe significado, preenchê-la com vida e permitir que ela, por sua vez, nos transforme. Neste livro intimista e emotivo, acompanhamos um momento aparentemente simples: a mudança de uma família para uma nova casa. O que poderia ser uma simples narrativa sobre deslocação transforma-se, porém, numa delicada meditação sobre pertença, memória e afectos.

A narrativa constrói-se num registo íntimo, quase sussurrado, onde o olhar da criança assume um papel central. Não há dramatizações excessivas ou conflitos ruidosos; há, antes, uma atenção minuciosa aos pequenos gestos: arrumar objectos, explorar divisões, reconhecer cheiros e texturas. É no detalhe que o leitor amplia o sentido da narrativa e compartilha a densidade emocional. A casa deixa de ser um espaço físico para se tornar um lugar vivido, moldado pelas experiências e relações que nele se desenrolam.
As ilustrações de Phoebe Wahl, ricas em cor e textura, evocam uma estética artesanal que remete para o calor do feito à mão. Tons terrosos, verdes suaves e azuis envolventes criam uma atmosfera acolhedora, onde cada página parece respirar. Há uma abundância de pormenores, que convidam a exercitar memórias e à contemplação demorada: padrões nos tecidos, objectos espalhados, fragmentos de vida quotidiana que contam histórias paralelas à narrativa principal.

As guardas, iniciais e finais, são parte integrante da experiência narrativa. As iniciais funcionam como mapa, ajudando o leitor a situar-se fisicamente, mas também funcionam como uma espécie de mapa emocional, antecipando o universo da história, introduzindo o leitor, subtilmente, na casa azul e no ambiente que ao longo da leitura será habitado; as finais regressam transformadas, carregando o peso simbólico do percurso vivido, dando visibilidade ao espaço de transição entre o fora e o dentro, entre o leitor e o mundo do livro. Um livro fantástico. Para ler e dar a ler, dialogar, guardar e (re)vistar muitas vezes.











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