Há quem diga, recuando até ao longínquo 2015, que se tratou do ano da queda de uma boys band chamada 5 Seconds of Summer. Tudo devido a uma entrevista dada à Rolling Stone, na qual os então jovens australianos trespassaram os corações adolescentes falando, com alguma ingenuidade e bastante gabarolice, sobre sexo, drogas e uma vida de bastidores ao nível da ideia de amor livre semeada nos anos 1970 – para além de instituírem um conflito com o então on fire Justin Bieber.
A popularidade da banda desceu alguns degraus, mas os 5SOS estiveram longe de levar com um cancelamento, tratando de alimentar os fãs com periódicos longas-duração – ainda que optassem, a certo momento, por uma ligeira pausa pelo meio motivada pelo moderno burnout. Mais recentemente, para além da edição de uma nova rodela – “Everyone`s a Star” (2025) -, Luke Hemmings, Calum Hood, Michael Clifford e Ashton Irwin arriscaram aventuras a solo, todos eles com discos publicados em nome próprio entre 2024 e 2025, sinais de uma banda que parece estar em estado de graça.

Numa Meo Arena em modo Meio Arena, os 5 Seconds of Summer quiseram mostrar-nos que existe um Australian Humour, protagonizando um concerto-filme onde souberam rir-se de si próprios, criando uma narrativa ficcionada e muito divertida sobre os altos e baixos de uma carreira que conta já com década e meia.
As luzes apagam-se e, nos ecrãs, surge a pergunta-desafio que irá alimentar todo o concerto: “Como foi estar na maior boys band do mundo?” Estava oficialmente aberto o primeiro – de seis – acto, intitulado – numa tradução mais ou menos livre – “O Pico”, onde assistimos à chegada da banda num carro de luxo, devidamente acompanhados da bandeira portuguesa, entrando em palco à boleia de “NOT OK”, que teve direito a purpurinas como se a festa fosse já avançada.

Depois de “Nº 1 Obsession” e “Teeth” é tempo para recuar até 2011, para mais um momento de entrevista onde os 5SOS assumem o estatuto de sensação global: “Criámos um monstro. Não vou mentir, éramos galãs. A boys band das boys bands. Éramos intocáveis, sentimos que iria durar para sempre”. Segue-se “A Queda”, o segundo acto onde cabem “Easier”, “More”, “istillfeelthesame” e “No Shame”, servidas praticamente sem intervalo como se estivéssemos em modo Dj ou a rasar um mash up com o patrocínio do Glee.
Um acto onde a banda aproveitou para recordar as passagens anteriores por Portugal, incluindo na conversa um delicioso Powerpoint Break sobre a melhor estratégia para quem quer tornar-se uma estrela no nosso país. “Este é o último show da tour europeia, não havia lugar melhor para o fazer. Já estivemos aqui antes, vejo por aqui algumas caras familiares. Mas desta vez viemos preparados. Vamos ser mais profissionais que os portugueses”. Uma preparação que incluía, entre outras coisas, saber a língua local, passear pelo Time Out Market ou atestar o corpo com meia dúzia de ginginhas. Há tempo ainda para se simular os boyband awards, com o prémio a ser entregue em palco num estado de felicidade materializado em “She´s Kinda Hot”, “Boyband”, “Telephone Busy” e “Evolve”.

A felicidade não poderia, como em todas as histórias da Disney – pelo menos durante uma fatia de tempo – durar para sempre, estado expresso em “O Anseio”, o terceiro acto que viu a banda arriar forte e feio em jornalistas, isto depois de um crowdsurf mal calculado e de se verem fartos de ser chamados de boys band. Um acto acompanhado por “Bad Omens”, “Ghost of You” e “I`m Scared I`ll Never Sleep Again” – esta última poderia bem ter sido escrita pelos The 1975.
Caminhamos assim para o momento de separação da banda, descrita como uma evolução natural, num quarto acto que recebeu o nome “A Separação” e onde cada um dos membros da banda tocaram um dos seus temas a solo: Luke Hemmings com “Starting Line”; Ashton Irwin com “Have U Found What Ur Looking For?”; Calum Hood com “Don`t Forget You Love Me”; e, a fechar, Michael Clifford com “Enough”.

Recreando o programa “60 minutos”, a banda regressa para uma grande entrevista, com maturidade suficiente para se atirar a um quinto acto – “A Ascensão” – que, para além de um estado de “Amnesia”, serve sobretudo para revelar ao público a canção surpresa, trazida numa mala com ar de marmita térmica – momento televisivo que merece um reparo: “Tanto pixel, parece o Minecraft”. Ao contrário de “Start Over”, canção escolhida na maior parte dos espectáculos, o público português escolheu “Don`t Stop”, arrancado ao disco de estreia da banda.
O sexto e último acto leva-nos a “O Começo”, onde assistimos a imagens dos 5SOS no princípio de tudo, bem como a uma cómica recriação da banda sobre o seu processo criativo, escrevendo num quadro as músicas escolhidas para esta recta final: “English Love Affair”, “Voodoo Doll”, “Jet Black Heart” e “She Looks So Perfect”.
A frase “Viemos a este lugar pela magia” dá início ao encore, onde nos é servido um mantra de eleição, um daqueles que poderiam ter sido usados num filme como “Almost Famous”: “Bandas de verdade salvam fãs. Fãs de verdade salvam bandas”. “Everyone`s a Star” vê subir a palco Master Peace e South Arcade, bandas que aqueceram o público para o concerto, ficando a despedida a cargo de “Youngblood” e de um até breve: “Todas as grandes histórias têm um capítulo final. A nossa ainda não está terminada”.
Fotos: Everything is New / Tiago Cortez
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Promotora: Everything is New











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