“Bando de Nuvens” (Akiara Books, 2025), escrito por Irma Borges e com ilustrações de Mo Gutiérrez Serna, é um convite à contemplação, um livro que se lê devagar como quem levanta os olhos ao céu e se demora a observar, com um conjunto de poemas que se constrói a partir de uma ideia profundamente fértil: as nuvens como metáfora do mundo.
As nuvens abrem um universo de possibilidades que percorre toda a obra. A poesia de Irma Borges assenta na leveza. Os poemas são breves mas densos, trabalhando a imagem, o ritmo e a associação inesperada. As “nuvens” deixam de ser apenas fenómenos meteorológicos para se tornarem matéria poética: há nuvens de folhas, de flores, de peixes, mas também nuvens de pensamentos e de silêncios.
Bandos de nuvens que permitem, ao leitor, deslocar o olhar do concreto, convidando-o a imaginar, a ver o mundo como um espaço em constante transformação. Uma poesia que não oferece explicações, apenas sensibilidade e contemplação, instigação e uma respiração pausada – o mais propicio ao mundo da hermenêutica, do diálogo e da partilha.

Há poemas que associam as nuvens a elementos naturais, sejam “nuvem de pássaros”, “dente-de-leão”, “mar de trigo” ou “nuvem caracol”, dando forma a um ritmo, a uma continuidade entre o céu e a terra, estimulando as experiências sensoriais. A oferta, ao leitor, alarga-se, podendo descobrir-se poemas mais intangíveis, ou outros mais metafísicos que convidam o leitor a habitar o não-dito, o espaço entre as palavras.
As ilustrações de Mo Gutiérrez Serna desempenham um papel absolutamente central na poesia – e no livro. A paleta de cores intensas e cuidadas não é mera companhia do texto, mas sim interpretação e sensibilidade. A cor, em particular, assume uma função narrativa. Cada poema parece respirar numa atmosfera cromática própria, ora mais quente, ora mais fria, ora mais luminosa ou mais contida, traduzindo visualmente o seu tom emocional. Há páginas em que a cor explode, acompanhando a vitalidade das imagens; noutras suaviza-se, abrindo espaço ao silêncio e à contemplação. O leitor é solicitado a acompanhar o diálogo entre a poesia e a cor, um verdadeiro estímulo a uma leitura sensorial.
As guardas, iniciais e finais, convidam à observação, à lentidão, a um gesto poético. Evocam padrões, formas ou atmosferas ligadas às nuvens e à natureza, preparando o leitor para entrar no livro – e, no caso das guardas finais, prolongando a experiência poética. São, de certa forma, o primeiro e o último poema — silenciosas mas essenciais. Um livro sem idade, para ler devagar, revisitar ou habitar, para olhar e voltar a olhar.
Mar de Nuvens
“Do cimo da montanha
Contemplo mar de nuvens.
Esse pulmão macio
Que cobre o amanhecer.
Essa mola que chega
Até às minhas asas
E foge dos meus pés. “











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