“Apetece-me ficar a olhar para a torradeira cromada e perder-me para sempre. Sou um extra-terrestre preso num corpo, sentado noutra mesa, noutro mundo”. Sejam bem-vindos ao mundo de Brian Milner, um rapaz apaixonado por cinema – sobretudo pelos filmes B de ficção cientifica mais dados à estranheza – que vive num mundo quase só seu.
Brian é amigo de infância de Jimmy, com quem tem vindo a construir uma filmografia singular desde que se conheceram em crianças, encontrando-se a preparar um novo capítulo cinéfilo. Desta vez, porém, o universo de Brian será abalado por Laurie, a protagonista do filme – e também narradora, função de divide a meias com Brian -, que se tornará numa obsessão – e num amor não correspondido – para Brian, que a filma e desenha muitas vezes sem consentimento – e outras tantas sem roupa.
Para Brian, o filme é “sobre todas as merdas maradas que tenho na cabeça” mas, mesmo com um storyboard desenhado a régua e esquadro e esboços vários, parece-lhe difícil transportar para a sétima arte o seu mundo feito de extra-terrestres, que parecem bolas voadoras com múltiplos tentáculos – ou vermes deslizantes.

Escrito e desenhado por Charles Burns, “Final Cut” (Asa, 2026) tem uma certa aura de filme de terror, onde cada personagem encara uma versão do boneco Chuckie só que na versão de modelo de revista. Ao nível do desenho, tudo está no ponto: a disposição das vinhetas, seja quando nos são servidas em quadrículas ao estilo de um guião visual como quando se apresentam em tiras verticais; as páginas duplas a preto e branco, desenhadas por Hitchcock se este tivesse abraçado a pop art; ou as ilustrações, sublimes, seja na invenção de seres alienígenas ou na criação de semi-desertos, que trazem à memória uma qualquer expedição de Star Trek na versão televisiva quando os efeitos especiais eram um luxo.
Não faltam referências várias a filmes de culto, sejam eles “The Last Picture Show” ou “Invasion of the Body Snatchers”, num álbum que nos mostra que a vida não acontece como na grande tela, e que a grande arte acontece, não raras vezes, quando a vida e o amor nos falha.











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