“O Quarto” (APCC, 2024), de Susana Moreira Marques e ilustrado por Inês Viegas Oliveira, parte da poderosa ideia de que todas as histórias começam – e talvez caibam – num quarto. Uma premissa particularmente interessante, pelo modo como transforma um espaço aparentemente simples num território poético e infinito. O quarto deixa de ser apenas um espaço físico, para se tornar um território de imaginação, liberdade e identidade. O texto dirige-se directamente ao leitor, convocando-o a entrar, não apenas num quarto concreto mas no seu próprio mundo interior: “O quarto até pode estar vazio. Ter só uma cama. Ou nem uma cama, se a casa está a ser decorada. É preciso entrar”.
Susana Moreira Marques escreve de forma económica, sussurrada e bela. Em vez de contar uma história linear, o texto propõe imagens, situações e possibilidades: num quarto, pode entrar o sol mas também a chuva; pode conviver-se com monstros debaixo da cama; “pode nevar em dias improváveis”; podem acontecer viagens sem sair do lugar pois, “mesmo num quarto pequeno é preciso andar muito para chegar onde queres”.
Mantendo, ao longo do texto, o diálogo com cada leitor, este é convidado a projectar as suas experiências, as suas memórias e os seus desejos naquele espaço íntimo. O quarto é um espaço único, íntimo e que abraça múltiplos espaços: o da escrita e o da leitura, do encontro e do esconderijo, da criação e da imaginação, do nascimento das histórias, da vida e da forma de habitar no mundo – a unicidade habita na sua multiplicidade.
As ilustrações de Inês Viegas Oliveira acompanham este movimento com uma linguagem visual igualmente poética. As figuras surgem, muitas vezes, difusas, fragmentadas, como se fossem memórias ou sonhos em construção. A minúcia é relevante. A cor desempenha um papel central. Longe de ser meramente decorativa, constrói atmosferas e estados emocionais: páginas mais luminosas, onde a luz parece expandir o espaço, e outras mais densas, onde as cores se tornam mais contidas, sugerindo recolhimento, introspecção ou silêncio.
A transmutação cromática acompanha a ideia de quarto enquanto espaço mutável, que não é fixo, que se transforma consoante quem o habita e o imagina. A cor é linguagem, diz de outra forma. As guardas iniciais, num azul suave, recordam o céu, transportando o leitor do exterior para o interior, da realidade para o mundo do livro, o mundo das possibilidades; as finais prolongam a experiência, como se o leitor permanecesse no interior do quarto, mesmo depois de fecharmos o livro. Afinal, “foi num quarto que tudo o que leste encontrou o seu final feliz”.
O diálogo entre texto e a ilustração é particularmente bem conseguido. As ilustrações prolongam o texto, abrindo novas possibilidades, criando pequenos desvios que nutrem a leitura. Um pequeno-grande livro, que estima a imaginação, a interioridade e a liberdade criativa. Os [nossos] espaços, por mais pequenos que sejam, podem albergar o mundo inteiro. Maravilhoso.











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