Há livros que nos surpreendem pela simplicidade e delicadeza, por partirem de premissas elementares, modestas e, ainda assim, serem capazes de surpreender. “O Esquilo e o Passarinho” (Fábula, 2025) é um desses livros, com um texto construido a partir da singela premissa: dois amigos muito diferentes decidem organizar um concerto para a floresta.
A ideia não parece ser original nem complicada e, no entanto, aquilo que se julga saber sobre cada personagem revela-se incompleto. O esquilo e o passarinho revelam que, na vida, nem tudo é linear ou previsível. Somos aquilo que os outros pensam de nós? Estaremos rotulados? Será o passarinho sempre silencioso e sossegado, enquanto o esquilo é barulhento? Ou será que, às vezes, o passarinho também gosta de barulho e o esquilo de silêncio?
A escrita de Laura Baker é acessível, mas com significado. Sem recorrer ao moralismo, o texto introduz temas pertinentes, actuais e que requerem alguma reflexão – como a identidade, a auto-estima ou a liberdade de expressão -, tratados de forma leve e profundamente respeitadora da inteligência do jovem leitor. Trata-se de uma narrativa delicada e subtil, oferecendo possibilidades de diálogo.

As maravilhosas ilustrações de Stacey Thomas enriquecem e ampliam o texto. De grande expressividade, conseguem criar um ambiente visual acolhedor, uma estética que oscila entre o contemporâneo e um certo toque vintage. A paleta de cores reforça as emoções e as nuances da narrativa. É necessário que o leitor esteja atento ao detalhe das expressões, dos ambientes, uma vez que as ilustrações amplificam o poder da palavra e o conhecimento das personagens. A arquitectura da ilustração, ora em página dupla, ora com vinhetas, aumentando as expressões e os detalhes, contribui para a imersão na narrativa, fortalecendo a coerência estética do álbum enquanto objecto elegante, delicado e belo. As guardas, iniciais e finais, assumem neste contexto um papel particularmente relevante, funcionando como uma extensão silenciosa da história, preparando o leitor para o universo da floresta e, simultaneamente, prolongando a sua experiência após o final.
Um livro maravilhoso que celebra a complexidade do ser, lembrando-nos, com delicadeza, que poderemos ser muitas coisas ao mesmo tempo – e que é precisamente nessa diversidade que reside a beleza das relações.











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