O ano de 1914 aproximava-se do fim quando Georg Trakl se suicidou em Cracóvia, na Polónia, com uma overdose de cocaína – uma das várias drogas que não lhe eram desconhecidas. A Primeira Grande Guerra começara poucos meses antes, e o poeta austríaco de 27 anos, nascido em Salzburgo, em 1887, que estudara Farmácia e chegara a trabalhar como farmacêutico num hospital militar, não resistiu à depressão profunda que dele se apoderou após participar na batalha de Gródek, na frente leste do conflito. À literatura, legou uma obra poética publicada em livros e revistas, que encontrou apreciadores ainda no seu tempo, bem como um importante espólio que contribuiu para que seja hoje considerado um dos mais destacados poetas do expressionismo germânico. Essa poesia completa encontra-se reunida em “Crepúsculo de Outono” (Assírio & Alvim, 2026), uma edição onde só há a lamentar o facto de não ser bilingue, com uma iluminadora introdução de João Barrento, que também é responsável pela tradução e pelas notas.
O primeiro texto, intitulado “Os Corvos”, oferece uma excelente introdução ao universo em que vamos mergulhar. Aqui, as aves, com o seu “grito esganiçado”, “perturbam o silêncio acastanhado / Em que o campo encantado se delicia”, voando “como um cortejo de morte” quando “sentem algures carne para comer”. Toda a obra é percorrida por inquietações – dir-se-ia mesmo obsessões –, associadas a visões de degradação e morte. Predomina uma atmosfera ominosa, dominada por uma imagética repleta de maus augúrios, com a beleza triste e melancólica da natureza e do meio rural a ser constantemente contaminada por um mal difuso. É assim que, por exemplo, acompanhamos a transformação de uma jovem aldeã que, num final de tarde, vai buscar água ao poço, mas de noite já delira com febre e, em breve, “jaz branca nas trevas” – vítima de uma doença que pode ser dela, do império austríaco, ou da Humanidade, para a qual o autor vaticina um futuro sombrio noutros poemas, em linhas como “No hospital geme o mundo doente”, ou ”Mas em silêncio sangra em escura caverna a mais muda Humanidade”. Para tal desesperança, terão certamente contribuído as atrocidades da guerra:
“Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos
Perder-se tudo nos fundos da memória”
Certas evocações da mitologia clássica coexistem com marcas de religiosidade cristã, como freiras a passar, igrejas, sinos a repicar e referências a um salvador, mas a salvação é inalcançável e até os anjos são atingidos pela degradação. Os vivos são “uns pobres bonecos ante a morte” e os fantasmas assombram cada espaço. Omnipresente está também a figura de uma irmã, supostamente Grete, com quem Georg tinha uma ligação fortíssima – até incestuosa, segundo várias fontes.
Da alma deste poeta, comparada pelo próprio a um “poço negro”, fica a ecoar em nós uma estranheza onírica que construiu magistralmente, bem com a mágoa de uma mente atormentada que fantasia com a paz: “envolveu-me a paz de jacintos da noite […] e quando, em contemplação me finei, morreram em mim o medo e as mais fundas dores”.











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