• Mil Folhas
  • Música Com Cabeça
  • Cine ou Sopas
deusmelivro
À Noite na Floresta, Sarah Cheveau, Deus Me Livro, Orfeu Negro, Crítica,
Mil Folhas 0

“À Noite, na Floresta” | Sarah Cheveau

Por Julia Martins · Em 22/04/2026

“À Noite, na Floresta” (Orfeu Negro, 2025) é um livro peculiar e pouco convencional. Inovador, invulgar e ousado, é essencialmente uma experiência sensorial, um mergulho no visível e no invisível, uma ode à protecção da biodiversidade e ao respeito pela natureza. Um livro que pede, ao leitor, tempo, escuta, silêncio e disponibilidade para ver.

“Certo dia, ao cair da noite, entrei na floresta e vi…”. A frase inicial da narrativa soa como um convite ao leitor, para abrandar, entrar na floresta e habitar no silêncio da noite. A narrativa, construída a partir de frases curtas e incisivas, quase sussurrando, desenvolve-se como um percurso de observação. Um esquilo que se esgueira, uma raposa em caça, um texugo a passar, uma corça a saltar e outras pequenas aparições, que surgem como fragmentos de um mundo maior, apenas parcialmente revelado. A economia de palavras abre espaço ao mistério, sugerindo mais do que é dito.

À Noite na Floresta, Sarah Cheveau, Deus Me Livro, Orfeu Negro, Crítica,

É na relação com a imagem que “À Noite, na Floresta” ganha a sua verdadeira densidade, beleza e singularidade. As ilustrações, feitas a carvão obtido a partir de diferentes árvores e arbustos, criam uma atmosfera profundamente orgânica, onde o gesto artístico se aproxima do próprio corpo da floresta. Sarah Cheveau recria, de forma exímia, uma experiência contemplativa de observação do mundo natural, e termina com um estudo de cor e um herbário que ajudam a compreender as técnicas utilizadas na conceção deste maravilhoso livro.

A paleta de cores é essencialmente escura: negros, castanhos, cinzentos. O catálogo cromático não é apenas uma escolha estética, é matéria, vestígio e memória vegetal. A floresta não é apenas representada estando, de certa forma, presente no próprio suporte da imagem. Uma opção plástica que oferece ao leitor um verdadeiro exercício do olhar, o qual se inicia nas guardas inicias e só termina nas guardas finais.

As formas surgem difusas, por vezes quase indistintas, obrigando o leitor a procurar, a aproximar-se e a decifrar, como se tratasse de uma exploração por um caminho de penumbra, onde vemos apenas partes, silhuetas e movimentos. O visível e o invisível entrelaçam-se, num jogo contínuo entre reconhecimento e estranheza, numa dimensão onírica que atravessa todo o álbum. O encontro com o javali, momento de suspensão e intimidade, rompe a lógica puramente observacional e apresenta um novo espaço: o de desejo e confidência. A floresta deixa de ser apenas um lugar exterior para se tornar território interior, a singularidade e unicidade da experiência.

No final, a autora transmite algumas dicas ao leitor: “Um pauzinho descascado e queimado dentro de um recipiente dá um pedaço de carvão vegetal. Um pedaço de carvão vegetal é uma ótima ferramenta para desenhar”, disponibilizando um estudo de cor e um pequeno herbário, que revelam os materiais e processos utilizados. Um final significativo e encantatório, que convoca o leitor para um novo exercício: regressar ao mundo real com um novo olhar, mais atento à matéria, às plantas, aos vestígios que nos rodeiam, à natureza e à contemplação. Um livro para ter por perto. Para ler e explorar a par e/ou em grupo. Um livro simplesmente extraordinário.

À Noite na Floresta, Sarah Cheveau, Deus Me Livro, Orfeu Negro, Crítica,

Sarah Cheveau vive e trabalha em Bruxelas, onde estudou ilustração, gravura e vídeo na École de Recherche Graphique. Integra o colectivo de ilustração, da escrita e do design gráfico. Como arte-educadora, desenvolve ateliês de artes plásticas para crianças.

“À Noite, na Floresta” venceu o Prémio Sorcières (França) 2024 na categoria Ficção, o Prémio IBBY Bélgica para Melhor Álbum Belga e o Prémio da Fundação Battieuw-Schmidt para álbum Lido e Partilhado.

À Noite na FlorestaCríticaDeus Me LivroOrfeu NegroSarah Cheveau

Julia Martins

Pode Gostar de

  • O Esquilo e o Passarinho, Deus Me Livro, Fábula, Crítica, Laura Baker, Stacey Thomas, Mil Folhas

    “O Esquilo e o Passarinho” | Laura Baker e Stacey Thomas

  • Crepúsculo de Outono, Georg Trakl, Deus Me Livro, Crítica, Asírio & Alvim, Mil Folhas

    “Crepúsculo de Outono” | Georg Trakl

  • O Vício dos Livros II, Afonso Cruz, Deus Me Livro, Crítica, Companhia das Letras, Mil Folhas

    “O Vício dos Livros II” | Afonso Cruz

Sem Comentários

Deixe uma opinião Cancelar

Siga-nos aqui

Follow @Deus_Me_Livro
Follow on Instagram

Mil Folhas

  • O Esquilo e o Passarinho, Deus Me Livro, Fábula, Crítica, Laura Baker, Stacey Thomas,

    “O Esquilo e o Passarinho” | Laura Baker e Stacey Thomas

    22/04/2026
  • Crepúsculo de Outono, Georg Trakl, Deus Me Livro, Crítica, Asírio & Alvim,

    “Crepúsculo de Outono” | Georg Trakl

    22/04/2026
  • À Noite na Floresta, Sarah Cheveau, Deus Me Livro, Orfeu Negro, Crítica,

    “À Noite, na Floresta” | Sarah Cheveau

    22/04/2026
  • O Vício dos Livros II, Afonso Cruz, Deus Me Livro, Crítica, Companhia das Letras,

    “O Vício dos Livros II” | Afonso Cruz

    21/04/2026
  • Ataque dos Titãs 5, Ataque dos Titãs, Hajime Isayama, Deus Me Livro, Crítica, Distrito Manga,

    “Ataque dos Titãs 5” | Hajime Isayama

    21/04/2026
Acha o Deus Me Livro diferente? CLIQUE AQUI.

Archives

  • April 2026
  • March 2026
  • February 2026
  • January 2026
  • December 2025
  • November 2025
  • October 2025
  • September 2025
  • August 2025
  • July 2025
  • June 2025
  • May 2025
  • April 2025
  • March 2025
  • February 2025
  • January 2025
  • December 2024
  • November 2024
  • October 2024
  • September 2024
  • August 2024
  • July 2024
  • June 2024
  • May 2024
  • April 2024
  • March 2024
  • February 2024
  • January 2024
  • December 2023
  • November 2023
  • October 2023
  • September 2023
  • August 2023
  • July 2023
  • June 2023
  • May 2023
  • April 2023
  • March 2023
  • February 2023
  • January 2023
  • December 2022
  • November 2022
  • October 2022
  • September 2022
  • August 2022
  • July 2022
  • June 2022
  • May 2022
  • April 2022
  • March 2022
  • February 2022
  • January 2022
  • December 2021
  • November 2021
  • October 2021
  • September 2021
  • August 2021
  • July 2021
  • June 2021
  • May 2021
  • April 2021
  • March 2021
  • February 2021
  • January 2021
  • December 2020
  • November 2020
  • October 2020
  • September 2020
  • August 2020
  • July 2020
  • June 2020
  • May 2020
  • April 2020
  • March 2020
  • February 2020
  • January 2020
  • December 2019
  • November 2019
  • October 2019
  • September 2019
  • August 2019
  • July 2019
  • June 2019
  • May 2019
  • April 2019
  • March 2019
  • February 2019
  • January 2019
  • December 2018
  • November 2018
  • October 2018
  • September 2018
  • August 2018
  • July 2018
  • June 2018
  • May 2018
  • April 2018
  • March 2018
  • February 2018
  • January 2018
  • December 2017
  • November 2017
  • October 2017
  • September 2017
  • August 2017
  • July 2017
  • June 2017
  • May 2017
  • April 2017
  • March 2017
  • February 2017
  • January 2017
  • December 2016
  • November 2016
  • October 2016
  • September 2016
  • August 2016
  • July 2016
  • June 2016
  • May 2016
  • April 2016
  • March 2016
  • February 2016
  • January 2016
  • December 2015
  • November 2015
  • October 2015
  • September 2015
  • August 2015
  • July 2015
  • June 2015
  • May 2015
  • April 2015
  • March 2015
  • February 2015
  • January 2015
  • December 2014
  • November 2014
  • October 2014
  • September 2014
  • August 2014
  • July 2014
  • Contacto