“À Noite, na Floresta” (Orfeu Negro, 2025) é um livro peculiar e pouco convencional. Inovador, invulgar e ousado, é essencialmente uma experiência sensorial, um mergulho no visível e no invisível, uma ode à protecção da biodiversidade e ao respeito pela natureza. Um livro que pede, ao leitor, tempo, escuta, silêncio e disponibilidade para ver.
“Certo dia, ao cair da noite, entrei na floresta e vi…”. A frase inicial da narrativa soa como um convite ao leitor, para abrandar, entrar na floresta e habitar no silêncio da noite. A narrativa, construída a partir de frases curtas e incisivas, quase sussurrando, desenvolve-se como um percurso de observação. Um esquilo que se esgueira, uma raposa em caça, um texugo a passar, uma corça a saltar e outras pequenas aparições, que surgem como fragmentos de um mundo maior, apenas parcialmente revelado. A economia de palavras abre espaço ao mistério, sugerindo mais do que é dito.

É na relação com a imagem que “À Noite, na Floresta” ganha a sua verdadeira densidade, beleza e singularidade. As ilustrações, feitas a carvão obtido a partir de diferentes árvores e arbustos, criam uma atmosfera profundamente orgânica, onde o gesto artístico se aproxima do próprio corpo da floresta. Sarah Cheveau recria, de forma exímia, uma experiência contemplativa de observação do mundo natural, e termina com um estudo de cor e um herbário que ajudam a compreender as técnicas utilizadas na conceção deste maravilhoso livro.
A paleta de cores é essencialmente escura: negros, castanhos, cinzentos. O catálogo cromático não é apenas uma escolha estética, é matéria, vestígio e memória vegetal. A floresta não é apenas representada estando, de certa forma, presente no próprio suporte da imagem. Uma opção plástica que oferece ao leitor um verdadeiro exercício do olhar, o qual se inicia nas guardas inicias e só termina nas guardas finais.

As formas surgem difusas, por vezes quase indistintas, obrigando o leitor a procurar, a aproximar-se e a decifrar, como se tratasse de uma exploração por um caminho de penumbra, onde vemos apenas partes, silhuetas e movimentos. O visível e o invisível entrelaçam-se, num jogo contínuo entre reconhecimento e estranheza, numa dimensão onírica que atravessa todo o álbum. O encontro com o javali, momento de suspensão e intimidade, rompe a lógica puramente observacional e apresenta um novo espaço: o de desejo e confidência. A floresta deixa de ser apenas um lugar exterior para se tornar território interior, a singularidade e unicidade da experiência.
No final, a autora transmite algumas dicas ao leitor: “Um pauzinho descascado e queimado dentro de um recipiente dá um pedaço de carvão vegetal. Um pedaço de carvão vegetal é uma ótima ferramenta para desenhar”, disponibilizando um estudo de cor e um pequeno herbário, que revelam os materiais e processos utilizados. Um final significativo e encantatório, que convoca o leitor para um novo exercício: regressar ao mundo real com um novo olhar, mais atento à matéria, às plantas, aos vestígios que nos rodeiam, à natureza e à contemplação. Um livro para ter por perto. Para ler e explorar a par e/ou em grupo. Um livro simplesmente extraordinário.

Sarah Cheveau vive e trabalha em Bruxelas, onde estudou ilustração, gravura e vídeo na École de Recherche Graphique. Integra o colectivo de ilustração, da escrita e do design gráfico. Como arte-educadora, desenvolve ateliês de artes plásticas para crianças.
“À Noite, na Floresta” venceu o Prémio Sorcières (França) 2024 na categoria Ficção, o Prémio IBBY Bélgica para Melhor Álbum Belga e o Prémio da Fundação Battieuw-Schmidt para álbum Lido e Partilhado.











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