Há livros que partem de uma ideia forte, mas “Sympathy Tower Tokyo” (Casa das Letras, 2026) parte de uma ideia “desconfortável”: criar uma prisão onde os criminosos são reclassificados como “homo miserabilis” e tratados, de forma luxuosa, como vítimas do contexto. Para tal, ergue-se no Japão um projecto arquitectónico utópico, que consiste numa enorme torre destinada a acolher condenados num conforto luxuoso.
No centro da narrativa está Sara Machina, arquitecta responsável pelo edifício, atravessada por um trauma pessoal que a torna impossível de olhar para essa “empatia institucionalizada” de forma neutra. O romance de Rie Qudan constrói-se a partir dessa tensão inicial – entre justiça e compaixão -, mas rapidamente se percebe que o verdadeiro campo de batalha não é a arquitectura ou o sistema penal, mas sim a linguagem.
Rie Qudan parece interessada em perceber até que ponto as palavras descrevem não apenas o mundo mas, também, o distorcem. A substituição de “criminoso” por “miserabilis” não é uma troca apenas inocente, mas também um gesto político, que tenta suavizar o conflito moral através do léxico. E é precisamente aí que o livro encontra a sua trave mestra, na ideia de que, ao se tentar tornar o mundo mais aceitável através das palavras, se acaba também por o tornar menos compreensível.
O romance funciona muitas vezes como uma espécie de laboratório de ideias, onde se cruzam temas como justiça social, trauma, tecnologia e linguagem, e em que a presença de um chatbot – cujas respostas foram, de forma assumida, parcialmente geradas por inteligência artificial – não consiste num mero recurso contemporâneo, mas sim numa extensão da reflexão de que a linguagem, automatizada, perde densidade, tornando-se eco e repetição.
Mas se “Sympathy Tower Tokyo” é intelectualmente estimulante, nem sempre consegue transformar essa estimulação numa verdadeira experiência narrativa, permanecendo uma sensação persistente de distanciamento, como se as personagens existissem apenas para sustentar ideias. A personagem principal, Sara Machina, com toda a sua complexidade (arquitecta de sucesso mas emocionalmente opaca), raramente ganha espessura suficiente para que o leitor se envolva plenamente, o mesmo acontecendo com as outras personagens que orbitam o centro da narrativa sem se tornarem memoráveis.
Este factor pode, também, ser interpretado como uma forma de espelhar um mundo onde a empatia foi institucionalizada ao ponto de se tornar abstracta, mas não deixa de criar um paradoxo curioso, com um romance sobre empatia a raramente conseguir emocionar, sendo que a própria estrutura da obra, fragmentada e por vezes dispersa, contribui para essa sensação de descontinuidade.
Ainda assim, há momentos em que tudo se alinha, sobretudo quando Qudan se aproxima daquilo que parece ser a sua verdadeira missão com este livro, e que se prende com o léxico e a sua importância na vida da sociedade. Nessas passagens, o livro ganha uma dimensão quase ensaística, levantando questões sobre o politicamente correcto, a linguagem mediada pela tecnologia e a erosão do significado num mundo saturado de discursos.
No final, “Sympathy Tower Tokyo” acaba por ser menos um romance no sentido clássico e mais uma obra híbrida, entre a ficção especulativa, a sátira e uma reflexão linguística, que se lê mais pela inquietação que provoca do que pelo prazer narrativo que oferece.











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