Não é caso para dizer que seja uma distopia mal-amada mas, quando as coisas aquecem e a discussão se torna mais acesa, a disputa pelo lugar mais alto do pódio é feita quase sempre entre “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Nos dias que correm, porém, talvez seja “Fahrenheit 451” (Cavalo de Ferro, 2026 – vova tradução por Paulo Tavares) o clássico mais actual e pertinente, um mergulho num futuro sombrio onde os bombeiros, ao contrário de apagarem fogos, têm como função queimar livros e as casas que os escondem.
Guy Montag, protagonista deste inquietante romance, tem 30 anos e é bombeiro desde os 20, nunca tendo lido um dos muitos livros a que deitou fogo. Com um casamento infeliz, um cão mecânico que o persegue de cada vez que regressa ou deixa o quartel de bombeiros e um chefe que parece ter abraçado de vez a alienação, Montag irá colocar a sua vida em perspectiva após dois acontecimentos transformadores: o primeiro, quando conhece Clarisse, uma rapariga rara que projectava “de volta a luz das outras pessoas”, e que o fará questionar a definição oficial de loucura: “qualquer homem que julgue poder enganar o estado e enganar-nos a nós é louco”; o segundo, quando assiste à auto-imolação de uma mulher, que prefere morrer queimada com os seus livros a ser castigada por possuí-los.
Aos poucos, o leitor vai tomando conhecimento da vida secreta que Montag foi preparando de forma inconsciente, assistindo aos primeiros sinais de insurreição e à injecção do “veneno” da leitura , palavras transformadoras que actuarão sobre um corpo adormecido onde, ainda assim, mora uma mente inquieta.
Ray Bradbury faz-nos olhar para um mundo totalitário que, se em 1953 poderia parecer distante, hoje está bem mais próximo, seja pelas tentativas de reescrever – ou apagar – a História, de trocar a inquietação e o pensamento livre pela excitação e o divertimento, ou de querer controlar aquilo que se lê. Nos Estados Unidos, por exemplo, no ano lectivo de 2023/24, foram banidos mais de 10000 livros de escolas e bibliotecas, muitos deles no universo da Banda Desenhada.
Um mundo que, aos poucos, vai caminhando rumo à distopia Bradburyana: “Devemos ser todos iguais. Não todos nascidos livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos tornados iguais”. Um daqueles livros que todos deveriam ler, pelo menos uma vez.











Sem Comentários