Sempre na recomendada capa dura, a Devir continua a trazer à luz da publicação a obra desenhada de Guy Deslile, autor de banda desenhada e realizador de animação, nascido no Quebeque (Canadá) em 1966. Depois dos sempre auto-biográficos “Shenzen” (ler crítica), “Pyongyang”, “Crónicas da Birmânia” e “Crónicas de Jerusalém” (ler crítica), é agora a vez de “O Guia do Mau Pai” (Devir, 2026), que reúne numa edição integral as tiras originalmente publicadas no blogue de Delisle.
Com um grau extra de exposição, sem mostrar receio de uma denúncia aos serviços sociais canadianos e recusando qualquer moralidade, Guy Delisle aposta na sátira para nos contar toda a imperfeição presente na sua parentalidade, onde o erro parece ser uma constante no processo de crescimento enquanto pai.

Através de uma desarmante honestidade, uma preguiça frequente e uma sinceridade capaz de fazer com que uma criança volte a usar fraldas, Delisle fala-nos de tudo neste Guia: do ratinho dos dentes, que outros conhecem como fada; das razões pouco científicas para não se engolirem caroços; das motivações necessárias para nos atirarmos a um saco de boxe; das partidas parvas capazes de nos manter à tona; da perspicácia da pequenada, sempre atenta ao mundo dos crescidos; de mitos como o Coelho da Páscoa ou o Pai Natal; do duplo sentido da palavra “penetração”; do mau perder, que Deslile parece possuir de sobra; da tendências para contar histórias sobre assassinos – ou lá perto; de explicações descontraídas para expressões como “a puta que os pariu”; da utilização da psicologia invertida como arma de arremesso; ou, ainda, de Harry Potter como um trampolim olímpico para a aprendizagem de verbos e conjugações.
O traço é simples, sempre num sóbrio preto e branco, com menos detalhes e pormenores que nos seus álbuns anteriores, centrados nesta bolha familiar que, já de si, tem pano de sobra para tricotar cachecóis e vinhetas. Para quem tem seguido de perto Guy Delisle, este é mais um para coleccionar.











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